Cobertura vacinal segue em queda e imunização infantil preocupa

O mês de junho tem como uma de suas datas principais do calendário da saúde o Dia Nacional da Imunização, celebrado dia 9. Mas já se vão alguns anos em que a data não é motivo para comemoração no país. Para que se tenha uma ideia, segundo dados do DataSUS, enquanto em 2011 a cobertura vacinal em território nacional alcançava 83,51%, em 2011, contudo, atingiu o percentual de 59,5%, ou seja, 24 p.p. a menos em 10 anos.

Queda na cobertura vacinal é ameaça para a infância

O Instituto Butantan alertou, recentemente, para o fato de que a queda na cobertura vacinal assistida nos últimos dez anos afeta, especialmente, o público infantil, mais vulnerável a doenças. Prova disso são os dados sobre a procura por vacinas como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) que vem registrando cobertura insuficiente desde 2017, quando atingiu a marca de 86,2% da população na faixa etária indicada imunizada. Em 2021, no entanto, esse percentual passou a 71,4%. Como resultado, os casos de sarampo voltaram a surgir e a se espalhar pelo país.

Em razão disso, a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) emitiu um alerta sobre o início da Campanha Nacional contra o Sarampo de 2022, que tem como público-alvo crianças da faixa etária de seis meses a cinco anos. A organização aproveitou para relembrar que, em 2021, a meta de atingir a taxa de 95% de imunização infantil contra a doença não foi alcançada. Os dados são do projeto VAX*SIM, que cruza informações sobre o papel das mídias sociais, do Programa Bolsa-Família e do acesso à Atenção Primária em Saúde na cobertura vacinal. 
Em consequência da queda da cobertura vacinal dos últimos anos, em 2020, 10 crianças com menos de cinco anos morreram por sarampo – o maior número de mortes das últimas duas décadas por causa da doença. Além disso, entre 2018 e 2021, 1606 crianças precisaram ser hospitalizadas para tratar a doença. Os casos começaram a explodir apenas dois anos depois que o Brasil tinha recebido o certificado de país livre do sarampo da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), fazendo com que o título fosse perdido em 2019. Ou seja, doenças antes erradicadas não apenas voltaram a aparecer como se tornaram preocupantes.

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E o sarampo não foi o único problema que voltou a crescer. Doenças como poliomielite e rotavírus vem se tornando ameaças crescentes ao público infantil. No caso do imunizante contra a pólio, enquanto em 2012 a cobertura vacinal foi de 96,5%, em 2021 passou para 67,6%. O vírus pode levar a sequelas graves ao atingir o sistema nervoso, provocando a paralisia de pernas e braços.

9 razões para a queda da vacinação infantil, segundo especialistas

Um amplo levantamento feito pela Fapesp e publicado na revista da instituição em 2018, indicou nove razões para a queda das taxas de vacinação, segundo análises feitas com informações do Ministério da Saúde e especialistas da área. Elas permanecem atuais e estão listadas aqui:

  1. Percepção enganosa dos pais de as doenças desapareceram e não é preciso vacinar as crianças;
  2. Desconhecimento do calendário de vacinação e os imunizantes de aplicação obrigatória em cada fase da infância;
  3. Medo de que os imunizantes provoquem reações ou efeitos colaterais (muito disseminado por movimentos antivax);
  4. Receio de que o sistema imunológico da criança não suporte a carga de imunizantes prevista no calendário vacinal;
  5. Dificuldade de conciliar a agenda do dia a dia e levar a criança ao posto de saúde em razão do horário de funcionamento;
  6. Percepção de alguns profissionais de saúde de que não é necessário vacinar crianças contra doenças que não existem no país;
  7. Maior complexidade do calendário vacinal, que previa a aplicação de seis imunizantes para as crianças nos anos 1990 e hoje prevê vacinas contra 14 doenças;
  8. Falta de vínculo das famílias com os sistemas de saúde ou com profissionais que incentivem a vacinação;
  9. Influência de notícias falsas a respeito das vacinas (fake news).

Todos esses problemas afetaram não apenas a aplicação de imunizantes contra o sarampo e contra a poliomielite. Além dessas doenças, acrescenta-se à lista recuos na aplicação das vacinas: hepatite A, meningocócica C, rotavírus, pentavalente e hepatite B.

PNI: por que falar sobre ele com os familiares e incentivar a vacinação?
As vacinas estabelecidas no calendário de imunização infantil são oferecidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). O Calendário Nacional de Vacinação do Brasil, aliás, contempla não apenas as crianças, mas também outras faixas etárias e populações, nas quais se enquadram adultos, idosos, gestantes e povos indígenas. Ao todo, são 19 tipos de vacinas oferecidas à população geral. 

Falar sobre elas é essencial para manter a população bem-informada a respeito das vacinas, principalmente durante a infância, em que o organismo do indivíduo está muito mais suscetível ao agravo de doenças virais. A seguir, destacamos os principais imunizantes a serem aplicados na infância.

* A vacina contra febre amarela está indicada para crianças a partir dos 09 meses de idade, que residam ou que irão viajar para área endêmica (estados: AP, TO, MA MT, MS, RO, AC, RR, AM, PA, GO e DF), área de transição (alguns municípios dos estados: PI, BA, MG, SP, PR, SC e RS) e área de risco potencial (alguns municípios dos estados BA, ES e MG). Se viajar para áreas de risco, vacinar contra Febre Amarela 10 (dez) dias antes da viagem.

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