Dipirona Monoidratada: bula, indicações e contraindicações

11/9/2023
10
Minutos de leitura
por:
equipe afya educacao médica
Compartilhar
Copy to Clipboard.
Compartilhar url

Saiba tudo sobre a Dipirona. Veja as indicações para dor e febre, riscos de hipersensibilidade e por que ela é um dos analgésicos mais utilizados no Brasil.

No plantão, na UPA ou no ambulatório, poucos gestos são tão automáticos quanto prescrever dipirona monoidratada. Não é por acaso: apenas em 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou a comercialização de mais de 215 milhões de doses do medicamento no Brasil.

No entanto, a rotina costuma criar falsas sensações de segurança. Quando saímos da prescrição padrão de "1g de 6/6h" e entramos em populações especiais, urgências pediátricas ou conciliações medicamentosas complexas, as dúvidas aparecem: quais são as contraindicações absolutas? Como fugir da perigosa armadilha da "gota por quilo"? O risco de agranulocitose justifica algum receio real na prática?

Para que você prescreva com total segurança clínica e jurídica, revisamos as informações atualizadas da bula da dipirona monoidratada — tanto na Solução Oral 50 mg/mL quanto na Solução Injetável 500 mg/mL.

O que é a dipirona monoidratada?

A dipirona monoidratada, também conhecida como metamizol, é um medicamento Também conhecida internacionalmente como metamizol, a dipirona é um derivado pirazolônico não narcótico. Farmacologicamente, ela atua como uma pró-droga: após a administração oral ou parenteral, é rapidamente hidrolisada no trato gastrointestinal em seus metabólitos ativos, sendo o principal deles a 4-metil-aminoantipirina (4-MAA).

Seu efeito analgésico, antipirético e espasmolítico não se resume ao bloqueio clássico das ciclooxigenases (COX-1 e COX-2). A literatura aponta para um mecanismo de ação multifatorial:

  • Inibição da síntese de prostaglandinas preferencialmente no Sistema Nervoso Central (SNC).
  • Dessensibilização de nociceptores periféricos via ativação do sistema óxido nítrico-GMP cíclico (NO-GMPe).
  • Ação proposta sobre uma isoforma central variante (frequentemente descrita como COX-3).

Na prática clínica: o início da ação ocorre entre 30 e 60 minutos, mantendo efeito clínico por cerca de quatro horas. Na via oral, a biodisponibilidade absoluta do metabólito ativo beira os 90% e não sofre redução de absorção quando o paciente ingere o medicamento junto às refeições.

Para que serve?

A dipirona é uma medicação indicada para diversas situações, principalmente para:

  • Tratamento da febre;
  • Dor aguda de intensidade leve a moderada;
  • Cefaleias;
  • Odontalgias;
  • Dor musculoesquelética;
  • Dor pós-operatória;
  • Cólicas e síndromes dolorosas viscerais.

A sua ampla utilização decorre da boa eficácia analgésica, rápida ação e perfil de tolerabilidade favorável quando utilizada corretamente. Por isso, é importante que o profissional compreenda corretamente as indicações e contraindicações da medicação.

Se você precisa justificar a escolha da dipirona intravenosa (1 g IV) no manejo da dor aguda em detrimento de outros analgésicos no pronto-socorro, os ensaios clínicos randomizados e controlados trazem o respaldo:

Cefaleia do tipo Tensional: promove um ganho terapêutico analgésico de 30% em 30 minutos e de 40% em 60 minutos comparado ao placebo, reduzindo a taxa de reincidência da dor pela metade e diminuindo drasticamente a necessidade de medicação de resgate.

Crise de Enxaqueca (Migrânea): em quadros sem aura, a melhora estatisticamente superior atinge 65,9% em 60 minutos (versus 16,7% do placebo), com o benefício clínico de suprimir sintomas satélites como náuseas, fotofobia e fonofobia.

Quais são as contraindicações absolutas da dipirona?

A prescrição de dipirona monoidratada deve ser terminantemente vetada nos prontuários de pacientes que apresentem:

Alergia prévia a pirazolonas ou pirazolidinas: histórico de hipersensibilidade à dipirona, fenazona, propifenazona, fenilbutazona ou oxifembutazona, incluindo episódios passados de agranulocitose ou reações cutâneas graves com essas substâncias.

Comprometimento da medula óssea: portadores de doenças do sistema hematopoiético ou pacientes em vigência/pós-tratamento citostático.

Síndrome da asma analgésica: pacientes que desenvolvem broncoespasmo, rinite, urticária ou angioedema desencadeados por analgésicos não opioides (como AAS, paracetamol, diclofenaco, ibuprofeno, indometacina ou naproxeno).

Porfiria hepática aguda intermitente: pelo risco de deflagração de crises porfíricas.

Deficiência congênita de G6PD: pelo risco iminente de hemólise.

Restrições de peso e idade:

Vias Oral e Intramuscular: Contra Indicadas para menores de 3 meses ou pesando menos de 5 kg.

Via Intravenosa: Estritamente contraindicada para menores de 11 meses de idade ou pesando menos de 9 kg.

Hemodinâmica instável: Vedada a administração parenteral em pacientes com hipotensão prévia ou instabilidade circulatória.

Dipirona pode ser utilizada na gravidez?

A dipirona atravessa a barreira placentária. A diretriz de conduta dos órgãos reguladores estabelece:

1º Trimestre: Evitar o uso.

2º Trimestre: Uso restrito à estrita avaliação médica de risco-benefício.

3º Trimestre: Uso totalmente contraindicado. Há risco de fechamento prematuro do ducto arterial e de complicações perinatais ligadas ao prejuízo da agregação plaquetária da mãe e do feto.

Lactação: Os metabólitos ativos são excretados no leite humano; a orientação é suspender a amamentação durante o uso e por até 48 horas após a última dose.

Como calcular a dose pediátrica da dipirona (e esquecer a "gota por quilo")

Prescrever "1 gota por quilo" de forma empírica é um dos erros de segurança mais comuns da pediatria. A "gota" não é uma unidade de massa, mas de volume — e a quantidade de miligramas contida em uma gota muda completamente dependendo da concentração do frasco dispensado pela farmácia.

Na apresentação padrão de Solução Oral 50 mg/mL (utilizada obrigatoriamente com o copo-medida que a acompanha), a posologia exata por faixa de peso é:

Peso Corporal

Média de Idade

Dose Única (mL)

Dose Máxima Diária

5 a 8 kg

3 a 11 meses

1,25 a 2,5 mL

10 mL/dia (4x de 2,5 mL)

9 a 15 kg

1 a 3 anos

2,5 a 5 mL

20 mL/dia (4x de 5 mL)

16 a 23 kg

4 a 6 anos

3,75 a 7,5 mL

30 mL/dia (4x de 7,5 mL)

24 a 30 kg

7 a 9 anos

5 a 10 mL

40 mL/dia (4x de 10 mL)

31 a 45 kg

10 a 12 anos

7,5 a 15 mL

60 mL/dia (4x de 15 mL)

46 a 53 kg

13 a 14 anos

8,75 a 17,5 mL

70 mL/dia (4x de 17,5 mL)

(Para adultos e adolescentes acima de 15 anos nesta solução de 50 mg/mL: a dose recomendada é de 10 a 20 mL por tomada; teto máximo diário de 80 mL = 4.000 mg) .

Tabela de Conversão: Gotas vs. Peso (Apresentação 500 mg/mL)

Se o hospital ou o paciente utiliza o frasco gotejador tradicional de 500 mg/mL (onde 1 mL = 20 gotas = 500 mg, ou seja, 1 gota = 25 mg), o cálculo para uma dose de 10 a 20 mg/kg segue a matemática real:

  • Criança de 10 kg (alvo de 100 a 200 mg): 4 a 8 gotas por tomada.
  • Criança de 15 kg (alvo de 150 a 300 mg): 6 a 12 gotas por tomada.
  • Criança de 20 kg (alvo de 200 a 400 mg): 8 a 16 gotas por tomada.

Regra de bolso: jamais escreva apenas "gotas" na receita sem cravar a concentração exata do produto.

Via Injetável Pediátrica (500 mg/mL)

Quando a via oral for inviável no pronto-socorro, administre os seguintes volumes de Solução Injetável 500 mg/mL:

  • 5 a 8 kg: 0,1 a 0,2 mL (Exclusivamente por via Intramuscular).
  • 9 a 15 kg: 0,2 a 0,5 mL (IV ou IM).
  • 16 a 23 kg: 0,3 a 0,8 mL (IV ou IM).

Agranulocitose por dipirona: mitos e verdades

O debate sobre a segurança hematológica do metamizol costuma gerar ruídos. Olhando estritamente para os dados da farmacovigilância:

  • Mito: "Toda pessoa que toma dipirona corre alto risco de agranulocitose".
    Não. A agranulocitose induzida pela medicação é classificada como uma reação adversa muito rara (incidência inferior a 0,01%).
  • Verdade: "O evento tem origem imunomediada".
    Trata-se de uma reação idiossincrática imunoalérgica. Ela não é dose-dependente e pode se manifestar no primeiro dia de uso ou até semanas após a suspensão do tratamento.
  • Verdade: "Febre e dor de garganta são os primeiros sinais de alarme".
    Como a medula sofre uma depleção severa de granulócitos (especialmente neutrófilos), o paciente perde a linha de defesa primária contra bactérias e fungos, abrindo quadros infecciosos de rápida evolução.

Instrua o paciente a suspender o fármaco imediatamente e procurar o hospital se apresentar: febre súbita/persistente, calafrios e lesões inflamatórias ou ulceradas na mucosa da boca, garganta ou região anal/genital. Diante da suspeita, solicite um hemograma completo com urgência; se confirmada a agranulocitose, a droga nunca mais poderá ser reintroduzida. 

O que é agranulocitose?

Agranulocitose é uma condição hematológica rara e potencialmente grave caracterizada pela redução acentuada dos granulócitos, especialmente dos neutrófilos, que são células de defesa fundamentais para combater infecções bacterianas e fúngicas.

Na prática, o organismo fica temporariamente com uma capacidade muito reduzida de responder a infecções, o que pode levar a quadros infecciosos graves e até sepse.

Por que a agranulocitose é associada à dipirona?

A agranulocitose é uma reação adversa rara descrita na bula da dipirona. Acredita-se que ocorra por um mecanismo imunológico idiossincrático, ou seja, não depende necessariamente da dose utilizada nem pode ser prevista previamente.

Embora o risco seja baixo, trata-se de um evento que exige atenção devido ao potencial de gravidade.

Quais são as principais interações medicamentosas

Embora geralmente segura, a dipirona pode interagir com alguns medicamentos de uso frequente.

Metotrexato

A associação pode aumentar a toxicidade hematológica, especialmente em idosos. Sempre que possível, a combinação deve ser evitada.

Ciclosporina

A dipirona pode reduzir as concentrações séricas de ciclosporina, exigindo monitoramento dos níveis plasmáticos.

Ácido acetilsalicílico

Pode haver redução do efeito antiplaquetário do ácido acetilsalicílico quando administrados concomitantemente.

Bupropiona

Há relatos de redução das concentrações plasmáticas da bupropiona durante o uso concomitante.

Outras reações adversas e interações de risco

Além das discrasias do sangue (pancitopenia, trombocitopenia), a atualização de bula adverte o médico para:

  1. Hipotensão associada à infusão: a administração intravenosa rápida aumenta consideravelmente o risco de reações hipotensivas isoladas. Aplique a injeção com o paciente deitado e a uma velocidade muito lenta: no máximo 1 mL por minuto.
  2. Lesão Hepática Induzida por Medicamentos (DILI): casos de hepatite aguda predominantemente hepatocelular surgindo de dias a meses após o início da terapia.
  3. Reações Cutâneas Graves: interrompa o tratamento ao menor sinal de exantema progressivo ou bolhas em mucosas (suspeita de Síndrome de Stevens-Johnson, NET/Lyell ou DRESS).

Quais são os principais efeitos adversos da dipirona?

A maioria dos pacientes utiliza o medicamento sem intercorrências significativas. Entretanto, eventos adversos podem ocorrer.

Entre os mais relevantes estão:

Categoria

Manifestações / Reações

Hipersensibilidade

Urticária, angioedema, broncoespasmo e anafilaxia

Hematológicas

Agranulocitose, leucopenia, trombocitopenia e pancitopenia

Cutâneas graves (Raras)

Síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e Síndrome DRESS

Alterações renais (Casos raros)

Nefrite intersticial aguda, insuficiência renal aguda e proteinúria

Lesão hepática

Hepatite medicamentosa e lesão hepática induzida por medicamentos (casos descritos)


Conciliação medicamentosa

A dipirona atua no fígado como indutora farmacocinética das enzimas CYP2B6 e CYP3A4. Tenha cautela ao associá-la com:

  • Bupropiona, sertralina, metadona, efavirenz, tacrolimo e ciclosporina: pode ocorrer redução dos níveis séricos desses fármacos, exigindo monitoramento terapêutico.
  • Ácido Acetilsalicílico (AAS): a dipirona pode atenuar o efeito antiplaquetário do AAS. Use com precaução em cardiopatas que tomam baixas doses de AAS para proteção cardiovascular.
  • Metotrexato: aumenta a toxicidade sanguínea do metotrexato (associação que deve ser evitada, sobretudo em idosos).
  • Valproato: pode reduzir as concentrações séricas do valproato, gerando perda do controle de convulsões ou do humor.

O que fazer em caso de superdosagem de dipirona?

Em situações de superdosagem, é importante destacar que não existe um antídoto específico para a dipirona. Por esse motivo, a conduta clínica baseia-se na estabilização do paciente e em medidas de suporte vital.

  1. Não procure um antídoto: Não existe antagonista específico para a dipirona.
  2. Desintoxicação primária: Em ingestões orais recentes, realize lavagem gástrica ou administre carvão ativado para impedir a absorção sistêmica.
  3. Depuração: O principal metabólito ativo (4-MAA) é passível de eliminação por hemodiálise, hemoperfusão ou hemofiltração em cenários graves.
  4. Atenção ao "falso sangramento": Doses muito elevadas provocam a excreção de um metabólito inofensivo chamado ácido rubazônico, que deixa a urina avermelhada. Avise a equipe de enfermagem para que não confundam o achado com hematúria.

Os sinais e sintomas mais frequentemente relatados na toxicidade aguda incluem:

  • Náuseas;
  • Vômitos;
  • Dor abdominal;
  • Sonolência;
  • Tontura;
  • Hipotensão;
  • Taquicardia.

O monitoramento contínuo dos sinais vitais ,com atenção especial à pressão arterial, e a hidratação adequada compõem a base do manejo até a completa eliminação do medicamento pelo organismo. 

FAQ - Dipirona Monoidratada

Por que a dipirona é proibida nos EUA e liberada no Brasil?

O FDA baniu o metamizol nos anos 1970 baseando-se em cálculos antigos e superestimados de risco de agranulocitose. No Brasil, na América Latina e em países da Europa (como Alemanha e Espanha), extensos estudos de farmacovigilância provaram que a incidência regional dessa discrasia é baixíssima (menos de 1 caso por milhão de habitantes/ano), oferecendo um perfil de tolerabilidade e eficácia analgésica superior ao de AINEs tradicionais.

Qual a diferença entre dipirona monoidratada e dipirona sódica?

Nenhuma do ponto de vista terapêutico. Ambas liberam exatamente a mesma molécula ativa no sangue (o metamizol). A diferença está apenas no sal utilizado pela indústria farmacêutica para estabilizar o composto na prateleira.

Como abrir a ampola injetável de forma correta?

As ampolas de 500 mg/mL possuem sistemas de quebra facilitada. No sistema Vibrac (anel de tinta no gargalo), apoie os polegares no anel e faça força para frente. No sistema OPC (ponto único de tinta), posicione o polegar exatamente sobre o ponto e rotacione para trás. Soluções abertas devem ser usadas imediatamente; descarte as sobras.

Prescrição consciente na prática clínica

A prática médica exige decisões rápidas, mas fundamentadas em segurança técnica. Dominar os pequenos ajustes posológicos e as contraindicações de um fármaco de massa é o que separa a prescrição automática da conduta de excelência.

Para continuar atualizando a sua prática diária direto no seu e-mail, assine a newsletter da Afya.

Referências

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Bula padrão de Dipirona Monoidratada. Atualização aprovada em março de 2026.

ANDRADE, A. L. et al. Agranulocitose associada ao uso de dipirona: revisão narrativa da literatura. Revista JRG de Estudos Acadêmicos, 2024. Disponível em: https://revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/1854/1509

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Model Formulary. Geneva: WHO.

BRUNTON, L. L. et al. Goodman & Gilman's The Pharmacological Basis of Therapeutics. 14. ed. New York: McGraw-Hill, 2023.

Artigo por:
Quer saber mais?
Selecionamos alguns posts que você pode gostar!
Obrigado!
Em breve nossa equipe entrará em contato com você.
Oops! Algo deu errado ao enviar o formulário.
Fale com um consultor
Obrigado!
Em breve nossa equipe entrará em contato com você.
Oops! Algo deu errado ao enviar o formulário.
Fale com um consultor

X

Olá, Futuro Especialista!👋

Venha bater um papo comigo no whatsapp e conheça as vantagens exclusivas que preparei para você.