Atualize-se com as novas diretrizes mundiais: mudanças críticas em protocolos de insuficiência cardíaca e hipertensão que o médico generalista ainda não aplica.
As principais mudanças são: nova meta pressórica universal de menos de 130/80 mmHg pela SBC (2025); reclassificação de 120/80 mmHg de "normal" para "pré-hipertensão"; e a Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca (AHA/ACC/ESC/WHF, 2026), que abandona os cortes rígidos de fração de ejeção e recentraliza o estágio B ("pré-IC") como janela crítica de prevenção.
O que mudou na diretriz de hipertensão da SBC 2025?
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, elaborada pela SBC em parceria com a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), trouxe mudanças na classificação, nas metas terapêuticas e no manejo da hipertensão arterial sistêmica (HAS).
A principal mudança prática está na meta pressórica: agora recomenda-se pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg para todos os pacientes, independentemente da idade e do risco cardiovascular, sem limite inferior definido em pacientes assintomáticos.
Essa meta é mais rigorosa que a da diretriz anterior, que ainda diferenciava metas por faixa etária e nível de risco.Protocolo antigo vs. novo:
Aspecto |
Diretriz anterior |
Diretriz SBC 2025 |
PA considerada "normal" |
Até 120/80 mmHg |
Menor que 120/80 mmHg |
PA 120-139/80-89 mmHg |
Classificada como "normal" ou "limítrofe" |
Reclassificada como pré-hipertensão |
Meta terapêutica geral |
Variável por idade e risco |
<130/80 mmHg para todos, sem limite inferior fixo |
Estratificação de risco |
Escores de risco cardiovascular tradicionais |
Uso do escore PREVENT, preconizado também pela AHA |
Betabloqueadores |
Uso restrito a indicações específicas |
Mantidos como opção em monoterapia ou associação em condições específicas |
Terminologia de crise hipertensiva |
"Urgência hipertensiva" para PA elevada sem lesão de órgão-alvo |
"Elevação importante da PA sem lesão progressiva de órgãos-alvo" |
Como fica o diagnóstico de hipertensão na prática?
O diagnóstico de HAS continua exigindo valores de consultório iguais ou superiores a 140/90 mmHg, confirmados em, no mínimo, duas consultas com intervalo de dias a semanas, ou por meio de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA).
Pacientes com lesão de órgão-alvo ou doença cardiovascular já estabelecida podem ter o diagnóstico confirmado sem essa repetição.
A avaliação complementar incorporou a relação proteinúria/creatininúria ou albuminúria/creatininúria aos exames de rotina já indicados, como eletrocardiograma, glicemia de jejum, hemoglobina glicada e taxa de filtração glomerular estimada.
Essas medidas ajudam a identificar lesão renal precoce, um dos órgãos-alvo mais sensíveis à hipertensão descontrolada.
Quando iniciar tratamento medicamentoso na hipertensão?
O tratamento não medicamentoso — controle de peso, redução de sódio, atividade física e cessação do tabagismo — está indicado a partir de 120/80 mmHg. Já o tratamento farmacológico segue este critério:
- PA ≥ 140/90 mmHg: tratamento medicamentoso indicado desde o diagnóstico;
- PA 130-139/80-89 mmHg com alto risco cardiovascular: medicação indicada se não houver controle após 3 meses de medidas não farmacológicas;
- Idosos com 60 anos ou mais: tratamento a partir de PAS ≥ 140 mmHg, com individualização em casos de fragilidade ou hipotensão ortostática.
As classes de primeira linha continuam sendo inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA), bloqueadores de canal de cálcio (BCC) e diuréticos, geralmente em terapia combinada desde o início para a maioria dos pacientes.
O que mudou na definição e no manejo da insuficiência cardíaca?
Em junho de 2026, AHA, ACC, ESC (European Society of Cardiology) e WHF (World Heart Federation), em colaboração com a HFSA, a HFA e a JHFS, publicaram a Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca, atualizando o documento de 2021.
Como fica a nova classificação da insuficiência cardíaca?
A insuficiência cardíaca (IC) passa a ser agrupada em três categorias clinicamente acionáveis, IC com fração de ejeção reduzida, IC com fração de ejeção preservada e IC com fração de ejeção melhorada, abandonando cortes numéricos rígidos de fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) que não consideravam variações por sexo, idade, etnia e método de imagem.
Essa mudança busca ampliar a elegibilidade de pacientes em estudos clínicos e refletir melhor a realidade da prática assistencial.
O documento reafirma a progressão em quatro estágios (A a D) e destaca o Estágio B, agora chamado de "pré-IC", como a janela crítica para detecção precoce e intervenção individualizada, já que a maior parte da população se encontra nos estágios 0, A ou B, antes do surgimento de sintomas.
Protocolo antigo vs. novo de insuficiência cardíaca:
Aspecto |
Definição de 2021 |
Segunda Definição Universal (2026) |
Classificação por FEVE |
Cortes numéricos fixos |
Três categorias clínicas: reduzida, preservada e melhorada, sem cortes numéricos rígidos |
Estágio B |
"Pré-insuficiência cardíaca" com foco estrutural |
Renomeado e reforçado como "pré-IC", com foco em pressão de enchimento elevada e prevenção |
Critério diagnóstico central |
Sintomas/sinais + evidência estrutural/funcional ou biomarcadores |
Pressão de enchimento elevada no centro do diagnóstico em todos os estágios |
Classificação etiológica |
Divisão ampla isquêmica vs. não isquêmica |
Taxonomia padronizada: isquêmica, hipertensiva, valvar, infiltrativa, infecciosa, inflamatória, tóxica, hereditária e metabólica, entre outras |
IC descompensada vs. piora da IC |
Termos usados de forma pouco padronizada |
Piora da IC diferenciada de IC descompensada |
Ferramentas diagnósticas emergentes |
Peptídeos natriuréticos e troponinas |
Inclusão do ECG assistido por inteligência artificial como ferramenta promissora, ainda pendente de validação ampla |
O que muda no manejo da HFpEF em 2026?
O Expert Consensus Decision Pathway (ECDP) do ACC para manejo da HFpEF, atualizado em julho de 2026, substitui a versão de 2023 e reforça que essa apresentação de insuficiência cardíaca deve ser tratada como síndrome multissistêmica, e não apenas cardíaca.
A avaliação diagnóstica passou a incluir sistemas de escore, identificação de simuladores de HFpEF e considerações específicas por sexo.
No manejo terapêutico, o documento consolida o uso e a titulação de inibidores de SGLT2, antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide, terapias baseadas em incretina, inibidores da neprilisina com bloqueador do receptor de angiotensina, além de diuréticos e betabloqueadores conforme o fenótipo do paciente.
Intervenções não farmacológicas, como exercício estruturado e restrição calórica, também ganharam mais peso no documento.
É importante reforçar que qualquer decisão terapêutica sobre insuficiência cardíaca ou hipertensão deve considerar a avaliação clínica individualizada, comorbidades associadas e o contexto do paciente — as diretrizes orientam a conduta, mas não substituem o julgamento clínico do médico responsável.
Por que essas diretrizes importam para o médico generalista?
Hipertensão e insuficiência cardíaca estão entre as condições mais prevalentes na atenção primária e na Clínica Médica, o que torna essas atualizações relevantes mesmo para quem não atua como especialista em Cardiologia.
A reclassificação da pré-hipertensão, por exemplo, amplia o número de pacientes que devem receber orientação sobre mudança de estilo de vida antes mesmo de qualquer prescrição medicamentosa.
Da mesma forma, entender a nova lógica da "pré-IC" ajuda o generalista a identificar precocemente pacientes de risco, como diabéticos, hipertensos de longa data e pacientes com obesidade, antes que desenvolvam sintomas evidentes de insuficiência cardíaca.
A atualização contínua em Cardiologia é parte relevante da prática clínica, especialmente em uma área marcada por diretrizes e opções terapêuticas em evolução.
Para quem está em fase de escolha de especialidade ou se prepara para a Residência Médica, acompanhar diretrizes internacionais também é parte da rotina esperada em provas de título de especialista e concursos de admissão a programas de Cardiologia.
Médicos que desejam aprofundar conteúdos cardiovasculares podem avaliar os critérios para escolher a pós-graduação em Cardiologia, incluindo carga prática, treinamento em eletrocardiografia, abordagem da insuficiência cardíaca, discussão de casos clínicos e atualização baseada em evidências.
A modalidade não substitui a Residência Médica ou a Prova de Título para fins de RQE, mas pode integrar uma estratégia de educação médica continuada.
FAQ
Qual é a nova meta de pressão arterial segundo a SBC 2025?
A meta é manter a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg para todos os pacientes hipertensos, independentemente da idade ou do risco cardiovascular, sem um limite inferior definido quando o paciente permanece assintomático. Essa é uma mudança em relação à diretriz anterior, que ainda previa metas diferenciadas por faixa etária.
O que é considerado pré-hipertensão na diretriz atual?
Pré-hipertensão é definida como pressão arterial sistólica entre 120 e 139 mmHg ou pressão arterial diastólica entre 80 e 89 mmHg, valores antes classificados como "normais" ou "limítrofes". Pacientes nessa faixa devem ser estratificados quanto ao risco cardiovascular e orientados sobre medidas não farmacológicas.
O que é a Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca?
É um documento de consenso publicado em 2026 pela AHA, ACC, ESC e WHF que atualiza a definição de 2021, substituindo cortes rígidos de fração de ejeção por categorias clínicas — reduzida, preservada e melhorada — e reforçando o estágio "pré-IC" como janela de prevenção.
Qual a diferença entre piora da insuficiência cardíaca e insuficiência cardíaca descompensada?
Piora da IC refere-se à deterioração progressiva de sintomas, biomarcadores ou exames de imagem em um paciente com IC já diagnosticada. IC descompensada, por sua vez, é definida pela necessidade de escalonamento terapêutico ou intervenção de resgate, não necessariamente associada à gravidade do quadro ou à hospitalização.
As metas de pressão arterial mudam para pacientes idosos?
A meta geral de menos de 130/80 mmHg é mantida também para idosos com 60 anos ou mais, incluindo aqueles com 80 anos ou mais, mas a diretriz recomenda individualização em casos de fragilidade moderada a grave, hipotensão ortostática sintomática ou expectativa de vida reduzida.
Quais são as novas classes terapêuticas destacadas para HFpEF?
O ECDP do ACC 2026 destaca inibidores de SGLT2, antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide e terapias baseadas em incretina como avanços recentes no tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, somando-se aos inibidores da neprilisina com bloqueador do receptor de angiotensina já utilizados.