Transtornos alimentares afetam as mulheres e estão ligados à cultura do corpo perfeito

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O que você considera o “corpo perfeito”? Embora essa pergunta possa ter muitas respostas, a principal delas é bastante conhecida das mulheres: magro, firme, curvilíneo. Esse modelo de corpo, uma construção social ainda muito enraizada no Brasil, é considerado um padrão de beleza a ser seguido, um tipo de representação de boa saúde e sucesso, algo especialmente cruel com as mulheres brasileiras. Faz também parte da nossa cultura, em geral muito machista, que entende o corpo feminino como um objeto.

Está estampado nas capas de revistas, na TV, nas redes sociais, no cinema, presente também conversas entre amigos e amigas. Um padrão que leva muitas pessoas a uma verdadeira corrida para alcançar o tal corpo ideal. Uma busca que, em muitos casos, pouco tem a ver com saúde. Na direção contrária, o reforço cultural do padrão de beleza magro é relacionado como uma das principais causas do surgimento de comportamentos alimentares de risco na população, com impactos na saúde mental e física de muitos indivíduos, a maior parte mulheres.

Segundo a OMS, 4,7% da população brasileira sofre com esses distúrbios, principalmente jovens mulheres. A ocorrência da anorexia, da bulimia nervosa e da compulsão alimentar entre as mulheres está diretamente ligada à busca para se encaixar nos padrões estéticos estabelecidos. Entenda algumas delas:

Anorexia

O sintoma base da anorexia nervosa é a restrição excessiva de ingestão calórica, como aponta o DSM5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua 5ª edição). Esse comportamento está associado, principalmente, ao medo exagerado de ganhar peso, além de uma distorção profunda da imagem corporal (a forma como entendemos e reconhecemos nosso corpo psicologicamente). Pessoas afetadas pela anorexia nervosa se olham no espelho e se vêem muito acima do peso, quando muitas vezes estão excessivamente magras.

Outros sintomas comuns em pessoas com anorexia são:

  • Perda rápida de peso
  • Prática exagerada de exercícios físicos
  • Preocupação excessiva com valor calórico dos alimentos
  • Interrupção do ciclo menstrual
  • Perda de características físicas naturais do sexo masculino e feminino
  • Depressão, síndrome do pânico, comportamentos obsessivo-compulsivos
  • Pele seca e coberta por lanugo

Bulimia

Pessoas com bulimia nervosa têm episódios de compulsão alimentar em curtos períodos de tempo, em que o paciente perde controle sobre a quantidade de alimento que ingere, em geral, com alta quantidade de calorias. São observados também comportamentos evitativos e compensatórios que envolvem a ingestão de alimentos. Uma vez saciada a vontade de comer a pessoa recorre a purgativos como vômitos induzidos, enema, dietas, exercícios físicos vigorosos e outras ações que de alguma forma “compensem” a compulsão alimentar.

Outros sintomas comuns em pessoas com bulimia são:

  • Uso indiscriminado de laxantes e diuréticos
  • Episódios temporários de dietas severas
  • Depressão, ansiedade, comportamento obsessivo-compulsivo, automutilação
  • Flutuação de peso
  • Distorção da autoimagem e baixa autoestima

Compulsão alimentar

A compulsão alimentar é classificada no DSM5 como transtorno de compulsão alimentar. Suas principais características envolvem a ingestão de grandes quantidades de alimentos com altas taxas calóricas e a perda de controle sobre a sensação de fome e saciedade. Além desses dois indícios, ainda podem ser destacados o hábito de comer escondido, mesmo quando há ausência de fome, sensação de desconforto físico por comer excessivamente e sentimento de culpa após a alimentação.

Outros sintomas de compulsão alimentar incluem:

  • Insatisfação constante com a quantidade de alimentos ingeridos
  • Depressão
  • Problemas anteriores com o sobrepeso ou obesidade;
  • Sistemas hormonais alterados devido a anos de hábitos alimentares excessivos
  • Existência de certos gatilhos emocionais que despertam vontade de comer

Tratamento de transtornos alimentares

O tratamento de transtornos alimentares envolve uma abordagem multidisciplinar. Demanda, por exemplo, acompanhamento com cardiologista, endocrinologista, nutricionista ou nutrólogo e terapia cognitivo-comportamental.

Diante da necessidade de uso de fármacos, o envolvimento de profissionais psiquiatras é fundamental. O tratamento farmacológico envolve o uso de fluoxetina, um inibidor seletivo de recaptação de serotonina e a medicação mais usada em muitos dos transtornos alimentares. Citalopram, sertralina e dextroanfetamina, assim como outros inibidores, como os de monoaminoxidase, também são comumente utilizados.

Uma boa relação médico-paciente é fundamental para a eficiência do tratamento. Muitas pacientes com transtornos alimentares apresentam episódios de ansiedade e depressão, portanto, o acolhimento e o diálogo são importantes ferramentas de aderência ao tratamento.

Você já atendeu pacientes com transtorno alimentar? Quais eram as principais queixas dos/das pacientes?

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