Quais os fatores associados a uma maior dificuldade em lidar com a incerteza na prática médica?

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Apesar de nem sempre ser reconhecida, a incerteza é parte fundamental da medicina. O médico diariamente se depara com situações onde é necessária a tomada de decisões em contextos ainda incertos. Saber lidar com a incerteza na prática médica é muito importante para o profissional e aqueles que têm pouca tolerância a ela podem acabar por experimentar sentimentos como medo, ansiedade, sensação de vulnerabilidade e até evitar tomar decisões.

A pandemia por covid-19 e as preocupações com os números de mortos e doentes trouxe ainda mais luz sobre como a incerteza impacta na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos médicos. Em um momento em que a preocupação com o bem-estar dos profissionais de saúde é alta, inclusive a respeito de doenças como o burnout, o estudo sobre a tolerância à incerteza é necessário e oportuno.

Análise recente

Com o intuito de entender melhor os fatores associados a uma maior dificuldade em lidar com as incertezas inerentes da prática médica, um grupo de pesquisadores da associação médica The Massachusetts General Physicians Organization (MGPO), da cidade de Boston, nos Estados Unidos, conduziu um questionário transversal aplicado a todos os 2.172 membros da organização. As perguntas de interesse da pesquisa foram incluídas no questionário bianual que já é normalmente aplicado para os médicos da MGPO.

Dessa forma, puderam ser avaliados dados pessoais e profissionais (como gênero, anos de experiência, especialidade) e métricas de bem-estar do médico (como satisfação geral com a carreira, burnout, tolerância à incerteza, engajamento no trabalho e suporte de colegas). Essas métricas foram avaliadas da seguinte maneira no questionário:

 

- Tolerância à incerteza: através de um único item, validado em pesquisas prévias, retirado da Escala de Reação de Médicos à Incerteza desenvolvida por Gerrity et al, que consta da afirmação “Eu acho a incerteza envolvida no cuidado aos pacientes desconcertante”. A resposta poderia variar de 1 a 5 (de menor à maior intolerância à incerteza);

- Burnout: através do questionário validado MBI-GS, de 16 itens.

- Satisfação geral com a carreira: através de uma escala de 5 pontos que responde a questão “O quão satisfeito você está com a sua carreira como médico?”

- Engajamento no trabalho: através da validada Escala de Engajamento no Trabalho de Utrecht.

Responderam ao questionário 93% dos 2.172 médicos da organização. Nas análises multivariadas, para as características pessoais e profissionais, uma maior intolerância à incerteza foi associada com: gênero feminino (IC 95%, 1,03 – 1,48); atuação na Atenção Primária (IC 95%, 1,22 – 2,0); falta de um orientador de confiança (IC 95%, 1,03 – 1,53) e menos anos de experiência (IC 95%, 0,98 – 0,995).

Para as métricas de bem-estar, os médicos com uma menor tolerância à incerteza possuíram: maior chance de estar em burnout (IC 95%, 2,41 – 3,88); menor chance de estar satisfeito com a carreira (IC 95%, 0,26 – 0,52); e menor chance de estar engajado no trabalho (IC 95%, 0,84 – 0,90).

Conclusão

Os resultados — colhidos de uma amostra grande, composta por médicos de várias especialidades e com variados tempos de experiência profissional — apontam para uma forte relação entre tolerância à incerteza e burnout, independentemente de como o bem-estar do médico foi medido. Ou seja, para diminuir os impactos dessa doença tão atual e prevalente parece ser essencial o entendimento e a aceitação da incerteza.

Os esforços devem ser direcionados, principalmente, para médicos do gênero feminino, atuantes na Atenção Primária — e de especialidades que atendem um alto número de doenças indiferenciadas e incertas —, com pouca experiência e sem acesso a um orientador de confiança.  

O estresse gerado pela dificuldade em lidar com incertezas possui consequências não só no bem-estar físico e mental do médico, mas potencialmente também na sua habilidade de performar adequadamente. Outros estudos demonstraram aumento de erros diagnósticos, piora de desfechos de saúde em pacientes e aumento de custos nos cuidados médicos relacionados à ansiedade gerada pela incerteza.

Nesse sentido, percebe-se que ajudar os médicos — desde o seu treinamento e graduação — a “abraçar” a incerteza como algo inerente à sua prática pode contribuir para a redução de casos de burnout, para a melhora da qualidade de vida do profissional — e da qualidade do cuidado prestado aos seus pacientes.

Autor

Renato Bergallo

Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Residência em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Administração em Saúde (UERJ) ⦁ Mestre em Saúde da Família (UFF) ⦁ Doutorando em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) ⦁ Editor Médico Associado do Whitebook ⦁ Diretor Médico de APS In Company na empresa Conviver ⦁ Professor do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da UERJ.

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