Dor crônica: o que se sabe sobre fibromialgia e quais as principais diretrizes para diagnóstico

A fibromialgia (FM) é uma considerada uma síndrome clínica que se caracteriza por dores crônicas no corpo que atingem, principalmente, a musculatura. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, o problema atinge 2,5% da população mundial. Mulheres constituem o grupo mais atingido, sendo que de sete a nove em cada dez casos são diagnosticados entre pessoas do gênero feminino. Já a idade de aparecimento costuma ser a mesma para os dois gêneros, variando na faixa entre 30 e 60 anos.

As causas exatas para o desenvolvimento da fibromialgia ainda não foram descobertas, mas especialistas avaliam, a partir da análise de estudos, que pessoas que passam pelo problema têm uma sensibilidade aumentada à dor quando comparadas a outras que não têm fibromialgia. Outros fatores importantes analisados foram gatilhos para o problema, entre eles:

  • Excesso de esforço físico
  • Estresse emocional
  • Ocorrência de infecções
  • Exposição a baixas temperaturas
  • Má qualidade do sono
  • Trauma

Leia também: Fibromialgia: a importância de uma visão integrativa sobre a doença

Reconheça os sinais que podem levar ao diagnóstico de fibromialgia

Embora a dor muscular seja a mais evidente no caso de quem sofre com fibromialgia, outros sintomas podem estar presentes também no paciente. Veja os principais:

  • Alterações visuais
  • Ansiedade
  • Cansaço crônico
  • Cefaleia
  • Depressão
  • Disfunção e dor na mandíbula
  • Dor ao urinar
  • Dor nas mamas
  • Falta de memória
  • Ganho de peso
  • Rigidez matinal
  • Sensibilidade ao toque

Desafios do diagnóstico correto e como superá-los

Como a dor da fibromialgia parece ser provocada por uma intensificação da percepção dos impulsos dolorosos, ainda hoje, apesar dos avanços em medicina, não há um exame laboratorial ou de imagem que possa contribuir com o diagnóstico. Sendo assim, para considerar a hipótese diagnóstica os profissionais precisam considerar o conjunto de sinais e sintomas que levam ao quadro. Esse foi, inclusive, um dos motivos que fizeram com que os Critérios de Classificação para Fibromialgia, do American College of Rheumatology, elaborados em 1990, se tornassem alvo de críticas, já que havia uma valorização muito maior da dor difusa em detrimento da análise dos demais sintomas.

Em resposta às críticas, em 2010, o American College of Rheumatology elaborou um outro documento, que você pode ver na íntegra aqui. No Brasil, em 2017, pesquisadores de diferentes universidades do país se reuniram e publicaram, na Revista Brasileira de Reumatologia, o artigo Novas diretrizes para o diagnóstico de fibromilagia.

O documento foi elaborado a partir da revisão sistemática da medicina baseada em evidências. Para selecionar os estudos, foram elaboradas nove questões clínicas de relevância para o diagnóstico de fibromialgia. A criação desse instrumento surgiu da necessidade de romper com os desafios do diagnóstico mais preciso.

Diretrizes evidenciadas a partir da revisão dos estudos sobre fibromialgia

Para chegar às conclusões das Novas diretrizes para o diagnóstico de fibromialgia, os pesquisadores identificaram 7.847, dos quais, após os critérios de classificação e exclusão, 53 foram incluídos nas avaliações.

A seguir, listamos as nove perguntas do estudo e as recomendações para cada uma a partir das revisões e análises:

1. Os critérios do ACR de 1990 são indispensáveis para o diagnóstico de FM? A conclusão é de que o diagnóstico de FM pode ser feito sem o uso dos critérios ACR 1990, entretanto sua aplicação junto aos critérios de 2010 aumenta a acurácia diagnóstica.

2. A dor difusa é essencial para o diagnóstico da FM? Segundo o documento, a presença da dor difusa é fundamental para o diagnóstico de pacientes com suspeita de FM.

3. Os pontos dolorosos devem ser considerados para o diagnóstico da FM?A análise é de que os pontos dolorosos podem ser úteis no diagnóstico da fibromialgia quando avaliados em conjunto com outros distúrbios funcionais contemplados nos critérios de 2010. Sua contagem pode se correlacionar com a intensidade de alguns sintomas, particularmente de estresse emocional.

4. Os distúrbios de sono, fadiga e cognitivos, também o são? O artigo recomenda que os distúrbios do sono, as alterações de cognição e a fadiga sejam considerados para o diagnóstico da FM. Sugere-se considerá-los também na avaliação da gravidade dos pacientes com FM.

5. Os critérios de 2010 podem ser considerados para o diagnóstico da FM? Foram recomendados o emprego dos critérios do ACR 2010 para o diagnóstico de fibromialgia. As modificações publicadas em 2011 estão mais bem indicadas para pesquisas epidemiológicas.

6. Há indicação da termografia no diagnóstico de FM? Observação: uso na dor complexa, quase nada em FM. Segundo o documento, não existem evidências científicas para recomendar o emprego da termografia para o diagnóstico da FM.

7. Quando devemos solicitar a polissonografia para o diagnóstico da FM? Observação: a pergunta de sono complementa. A conclusão é de que não há recomendação para o uso da polissonografia para o diagnóstico da FM.

8. O diagnóstico da FM é de exclusão? Observação: a resposta a essa questão pode nascer naturalmente com as outras respostas. O documento recomenda que a fibromialgia não seja considerada como diagnóstico de exclusão, mas que sejam considerados os diagnósticos diferenciais com outras síndromes ou doenças com sintomas semelhantes, como recomendado pelos critérios do ACR 2010.

9. Devemos avaliar distúrbios de humor no paciente com FM? Como? É sugerida a mensuração sistemática dos transtornos de humor por meio de instrumentos validados.

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