Neurologia e Covid-19: como se dá o comprometimento cognitivo após a doença?

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Um dos desafios impostos pela pandemia provocada pelo novo coronavírus está em detalhar a associação entre neurologia e Covid-19. Isso porque pacientes diagnosticados com SARS-CoV-2 têm apresentado alterações cognitivas, como confusão mental, por exemplo, que vem desafiando a neurologia, já que tal comprometimento parece ter fundamentação biológica.

Segundo um estudo publicado no Annals of Clinical and Translational Neurology, as alterações cognitivas estariam associadas a mudanças no líquor cerebral, que puderam ser observadas a partir de punções lombares, realizadas tanto em pacientes do grupo de sequelas relatadas pós-Covid longa quanto no grupo de controle. Os resultados demonstraram que 77% dos pacientes com sequelas pós-Covid longa tinham alterações no líquor (encontradas no marcador de inflamação e nas bandas oligoclonais), enquanto nenhum do grupo de controle apresentou mudança.

Embora o estudo seja bastante preliminar, a coordenadora da pesquisa acredita que esses achados poderão contribuir para que médicos possam tratar pacientes que relatam alterações cognitivas pós-Covid com investigações séricas e análise de líquor, observando a possibilidade de um “distúrbio inflamatório sistêmico”. Ou seja, embora a amostra deste estudo tenha sido pequena, pode servir para que profissionais observem que as alterações não são apenas psicológicas.

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Neurologia e Covid-19: quais os distúrbios relatados?

Um artigo publicado pela revista Nature Medicine listou os principais problemas neurológicos associados à Covid-19 tanto na fase aguda quanto na fase subaguda. Entre eles estão:

  • Problemas de memória
  • Dor de cabeça
  • Anosmia e ageusia
  • Mialgia
  • Encefalopatia
  • Delírio
  • Convulsões
  • Neuropatia
  • Miopatia

Ainda segundo os autores, problemas relatados com menos frequência envolviam movimentos anormais e agitação psicomotora, síncope e/ou disfunção autonômica, encefalomielite, encefalopatia necrosante aguda, polineuropatia desmielinizante inflamatória aguda e manifestações neurológicas suspeitas de anticorpos.

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Distúrbios neurológicos estão mais associados à Covid-19 do que ao vírus da gripe

Um outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, evidenciou que 1 em cada três pacientes que tiveram Covid-19 experimentaram distúrbios neurológicos como consequência da Covid longa.

As manifestações ocorreram dentro de seis meses após a infecção pelo novo coronavírus e incluíam:

  • Ansiedade (17%),
  • Transtornos de humor (14%),
  • Transtornos por abuso de substâncias (7%),
  • Insônia (5%),
  • AVC (2,1%),
  • Demência (0,7%) e
  • Hemorragia cerebral (0,6%).

Nesse mesmo estudo, os autores também avaliaram se pessoas que sofriam de gripe e outras infecções respiratórias estavam tão suscetíveis a complicações neurológicas quanto aqueles diagnosticados com Covid-19.

Para fazer a avaliação, os pesquisadores consideraram características de saúde subjacente, idade, sexo, etnia e outros fatores relevantes e concluíram que a ocorrência de alterações neurológicas e de saúde mental foram 44% maiores em pessoas que haviam sido diagnósticas com Covid-19 quando comparada a outras com gripe.

Como fazer o encaminhamento para o tratamento neurológico pós-Covid longa?

É importante atentar aos sintomas neurológicos autorrelatados por pacientes. Em situações em que as queixas neurológicas são ponto central e não há menção à Covid-19, caberá ao profissional de saúde fazer essa possível relação e associação, investigando desde a ocorrência de Covid-19, mesmo sem necessidade de hospitalização, até histórico pessoal e familiar de doenças neurológicas.

Em caso de suspeita de desenvolvimento de sequelas neurológicas como decorrência de Covid-19, é importante encaminhar o paciente para acompanhamento a fim de receber tratamento adequado e investigar riscos.

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