Inspire-se com a trajetória de mulheres que desafiaram barreiras e revolucionaram a saúde global, de Elizabeth Blackwell a pioneiras brasileiras.
A história da Medicina foi, durante muito tempo, escrita quase que exclusivamente por homens. As mulheres que ousaram entrar nesse campo precisaram enfrentar barreiras institucionais, preconceito e exclusão, mas abriram caminhos que hoje permitem que elas sejam maioria entre os médicos no Brasil, representando 50,9% da força médica do país, segundo a Demografia Médica 2025, da USP em parceria com a AMB.
1. Elizabeth Blackwell
Nascida na Inglaterra em 1821, Elizabeth Blackwell tentou ingressar em doze faculdades de Medicina antes de ser aceita pelo Geneva Medical College, em Nova York, em 1847. No início do curso, foi proibida de participar de práticas clínicas por ser considerado "inapropriado" para mulheres.
Ela ignorou o preconceito, estudou com dedicação e se formou em 1849 em primeiro lugar na turma, tornando-se a primeira médica titulada do mundo.
Ao longo da carreira, fundou instituições como o New York Infirmary for Indigent Women and Children e a London School of Medicine for Women, estruturas que abriram as portas da profissão para gerações seguintes.
2. Gerty Theresa Cori
Gerty Cori nasceu em 1896, em Praga, e se formou em Medicina apesar das restrições que as escolas femininas impunham ao currículo científico. Em 1922, ela e o marido Carl Cori emigraram para os EUA em busca de melhores oportunidades e passaram décadas pesquisando o metabolismo dos carboidratos.
Em 1947, Gerty se tornou a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, pela descoberta do mecanismo enzimático do glicogênio, base para o tratamento do diabetes e de doenças metabólicas.
3. Maria Augusta Generoso Estrela
A carioca Maria Augusta Generoso Estrela, nascida em 1860, queria estudar Medicina, mas o Brasil da época não permitia que mulheres ingressassem nas faculdades da área. Ela cruzou o Atlântico e se matriculou na New York Medical College and Hospital for Women.
Quando o pai faliu e seus estudos foram ameaçados, foi Dom Pedro II quem garantiu a bolsa que permitiu sua formatura em 1881. De volta ao Brasil, Maria Augusta revalidou o diploma na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e tornou-se a primeira mulher brasileira a exercer a Medicina legalmente no país.
4. Rita Lobato Velho Lopes
Rita Lobato Velho Lopes, gaúcha, foi a primeira mulher a se diplomar em Medicina dentro do Brasil, pela Universidade Federal da Bahia, em 1887. O caminho só foi possível após o decreto imperial de Dom Pedro II que vedava a discriminação de gênero no ensino superior.
Sua dedicação foi tamanha que concluiu o curso em apenas três anos. Rita se especializou em Ginecologia e Obstetrícia e por mais de 15 anos atuou no que hoje chamamos de Medicina da Família e Comunidade, oferecendo consultas e medicamentos gratuitamente à população.


5. Nise da Silveira
Em 1926, Nise da Silveira se formou pela Faculdade de Medicina de Salvador como a única mulher em uma turma de mais de 150 homens e uma das primeiras a exercer a Medicina no Brasil.
Natural de Maceió, escolheu a Psiquiatria numa época em que lobotomia, camisa de força e eletrochoque eram os tratamentos padrão para transtornos mentais.
Nise recusou esses métodos e criou, em 1946, a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional, onde os pacientes, em sua maioria esquizofrênicos, se expressavam por meio de arte. O Museu de Imagens do Inconsciente, fundado por ela em 1952, é um dos pilares que motivaram a Reforma Psiquiátrica brasileira.
6. Gertrude Elion
A bioquímica e farmacologista americana Gertrude Elion, nascida em 1918, desenvolveu uma técnica capaz de interferir no crescimento celular por meio de compostos sintéticos, uma abordagem revolucionária que gerou medicamentos para leucemia, malária, herpes e rejeição em transplantes de órgãos.
Ela recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1988 e, em 1991, tornou-se a primeira mulher a ingressar no National Inventors Hall of Fame dos EUA, acumulando ao longo da carreira 45 patentes na área médico-farmacêutica.
7. Françoise Barré-Sinoussi
A virologista francesa Françoise Barré-Sinoussi identificou, em 1983, o vírus do HIV como agente causador da Aids, descoberta que redirecionou a resposta mundial à epidemia e lhe rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2008.
Ao longo da carreira, assinou mais de 240 publicações científicas, presidiu a Sociedade Internacional de Aids e prestou consultoria à OMS e ao Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids, com foco especial em países de baixa renda.
8. Virginia Apgar
Formada pela Faculdade de Medicina de Columbia em quarto lugar da turma aos 24 anos, a americana Virginia Apgar dedicou sua carreira à saúde materno-infantil. Em 1952, criou o Teste de Apgar, uma avaliação aplicada no primeiro e quinto minuto de vida para detectar sinais de comprometimento no recém-nascido.
O método reduziu significativamente a mortalidade neonatal no mundo e marcou o surgimento da Neonatologia como especialidade, promovendo avanços na área que reverberam até hoje em qualquer sala de parto.
9. Zilda Arns Neumann
A pediatra e sanitarista catarinense Zilda Arns Neumann (1934–2010) fundou a Pastoral da Criança, instituição vinculada à CNBB que orienta famílias vulneráveis sobre higiene, aleitamento materno e contracepção em dezenas de países.
Ela também popularizou o uso do soro caseiro, solução simples de água, sal e açúcar que salvou incontáveis crianças da desidratação.
Em 1980, coordenou a campanha de vacinação Sabin durante a epidemia de poliomielite no Brasil, com metodologia tão eficaz que foi adotada pelo Ministério da Saúde. Zilda morreu em 2010 no terremoto do Haiti, onde atuava em missão humanitária.
10. Adriana Melo
A obstetra paraibana Adriana Melo, especialista em Saúde Materno-infantil, foi uma das primeiras pesquisadoras a identificar a ligação entre o Zika vírus e o surto de microcefalia no Nordeste do Brasil em 2015.
Sua descoberta foi publicada em 2016 na revista The Lancet e desencadeou campanhas nacionais de proteção para gestantes.
Atualmente, ela preside o Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq), em Campina Grande, continuando sua atuação em saúde pública e pesquisa clínica.
11. Katalin Karikó
A bioquímica húngara Katalin Karikó passou décadas sendo ignorada e até rebaixada em sua carreira acadêmica por insistir na pesquisa com RNA mensageiro — tecnologia que ninguém levava a sério.
Sua perseverança, em parceria com Drew Weissman, resultou nas modificações de nucleosídeos que tornaram o mRNA seguro e eficaz para uso humano.
Essa base científica foi fundamental para o desenvolvimento das vacinas de mRNA contra a Covid-19. Em 2023, Karikó recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, reconhecimento tardio de um trabalho que literalmente salvou milhões de vidas.
12. Jaqueline Góes de Jesus
A bioquímica baiana Jaqueline Góes de Jesus integrou a equipe que realizou, em fevereiro de 2020, o sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil em apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso no país, feito que ganhou repercussão internacional.
Jaqueline se tornou símbolo de representatividade na ciência brasileira: mulher, negra e nordestina em posição de destaque numa área historicamente excludente. Sua trajetória hoje inspira uma nova geração de cientistas e reforça a importância da diversidade na pesquisa médica.
E as mulheres na Medicina hoje?
O cenário atual é resultado direto dessas trajetórias. Segundo a Ministra da Saúde Nísia Trindade, primeira mulher a ocupar o cargo na história do Brasil e ex-presidente da Fiocruz, ainda existem barreiras a superar, especialmente no acesso a cargos de liderança. Mas o número de mulheres na Medicina cresce a cada ano, e elas já representam mais da metade da categoria no país.
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FAQ
Quem foi a primeira mulher a se formar em Medicina no Brasil?
Rita Lobato Velho Lopes foi a primeira mulher a se diplomar em Medicina dentro do Brasil, pela Universidade Federal da Bahia, em 1887. Já Maria Augusta Generoso Estrela se formou antes, em 1881, mas nos Estados Unidos.
Qual foi a primeira mulher a ganhar o Nobel de Medicina?
Gerty Theresa Cori, em 1947, pela descoberta do mecanismo de conversão do glicogênio, pesquisa fundamental para o entendimento do diabetes.
Qual mulher ganhou o Nobel de Medicina mais recentemente?
Katalin Karikó recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2023, pelo desenvolvimento da tecnologia de mRNA modificado que viabilizou as vacinas contra a Covid-19.
As mulheres são maioria na Medicina brasileira hoje?
Sim. De acordo com a Demografia Médica 2025 (USP/AMB), as mulheres representam 50,9% dos médicos no Brasil, uma virada histórica impulsionada pelas pioneiras que abriram esse caminho.
O que Nise da Silveira mudou na Psiquiatria?
Ela substituiu métodos agressivos como lobotomia e eletrochoque por terapia ocupacional e expressão artística, influenciando diretamente a Reforma Psiquiátrica brasileira.
Referências
BBC NEWS BRASIL. Nise da Silveira: quem foi a psiquiatra brasileira pioneira no tratamento com artes. 26 maio 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61603637. Acesso em: 23 jun. 2026.
CNBB – CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Drª Zilda Arns: médica e humanitária. Brasília: CNBB, 12 jan. 2010. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/dro-zilda-arns-medica-e-humanitaria/. Acesso em: 23 jun. 2026.
GOVERNO FEDERAL DO BRASIL. Zilda Arns: luta incansável pela qualidade de vida de crianças e idosos. Brasília: Ministério da Saúde, 24 jul. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/julho/zilda-arns-luta-incansavel-pela-qualidade-de-vida-de-criancas-e-idosos. Acesso em: 23 jun. 2026.
REVISTA AMPLA. Protagonismo feminino na medicina: conquistas e desafios. 21 jan. 2026. Disponível em: https://revistaampla.com.br/protagonismo-feminino-na-medicina-conquistas-e-desafios/. Acesso em: 23 jun. 2026.
SCIELO. Nise da Silveira. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 32, n. 3, set. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/ST6887NdYRBschFzS8sFhpP/. Acesso em: 23 jun. 2026.
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