O machismo no atendimento médico é uma realidade. Veja por que os médicos tendem a minimizar a dor das mulheres e como evitar esse comportamento no seu consultório!
Na teoria, os profissionais de saúde deveriam garantir um atendimento igualitário e empático a todos os pacientes, independentemente de gênero, etnia ou condição social. No entanto, muitos médicos tendem a minimizar a dor das mulheres, perpetuando estigmas e estereótipos que desvalorizam suas experiências.
Quando isso ocorre, as pacientes mulheres não recebem um diagnóstico preciso nem uma abordagem terapêutica adequada aos seus sintomas, o que resulta em tratamentos ineficazes e no agravamento de sua condição de saúde.
Diversos fatores contribuem para essa realidade, e compreendê-los é o primeiro passo para evitá-la. Neste post, exploremos por que a dor das mulheres nem sempre é levada a sério nos consultórios médicos e como garantir um atendimento mais equitativo e sensível.
Como o machismo na sociedade reflete na saúde da mulher?
O machismo permeia a sociedade de formas sutis e explícitas, afetando a vida das mulheres em várias esferas. Desde a infância, meninas são frequentemente ensinadas a adotar comportamentos submissos, enquanto os meninos são incentivados a ser assertivos e competitivos. Essa dinâmica resulta em ambientes acadêmicos e profissionais onde a voz feminina é frequentemente desconsiderada ou subestimada.
No mercado de trabalho, as mulheres enfrentam barreiras como a desigualdade salarial e a dificuldade de ascender a cargos de liderança, além da pressão constante de equilibrar responsabilidades profissionais e familiares. Essa sobrecarga limita seu potencial e perpetua a ideia de que suas necessidades e preocupações são menos importantes.
No campo da saúde, elas também enfrentam o machismo na medicina. Muitas mulheres relatam que suas queixas de dor são minimizadas ou desacreditadas por médicos, levando a diagnósticos imprecisos e tratamentos inadequados.
Esse fenômeno pode ser explicado por estereótipos de gênero que invalidam a experiência feminina. Em um contexto onde a dor é associada à fraqueza, as mulheres são ensinadas a suportar o sofrimento em silêncio. Como consequência, elas não recebem a atenção médica necessária, o que prejudica sua qualidade de vida.
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Por quais razões os médicos tendem a minimizar a dor das mulheres?
O atendimento deficitário às mulheres na área da saúde é proveniente de uma combinação de fatores, que inclui desde o machismo estrutural até a falta de preparo dos profissionais para reconhecer a intensidade da dor. Confira, a seguir, o que está por trás desse comportamento.
Desvalorização da intensidade da dor no público feminino
O sofrimento da mulher costuma ser subestimado em comparação ao do homem, sendo rotineiramente tratado com descrédito. Seus relatos de dor podem ser desvalorizados ou até mesmo ridicularizados, reforçando estereótipos culturais.
Um estudo feito pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, revelou que essa situação começa na infância. Isso porque os médicos partem de um pensamento equivocado de que os homens são mais ‘’estoicos’’ e as mulheres mais ‘’histéricas’’, o que colabora para uma interpretação de que a dor dos meninos é mais intensa e real, enquanto as queixas das meninas seriam exageradas.
Menor investigação da dor em mulheres em estudos científicos
Você sabia que a participação das mulheres é menor em estudos científicos? De acordo com uma revisão sistemática, que analisou os ensaios clínicos realizados no período de 2013 a 2022, o público feminino corresponde a somente um terço dos participantes dessas iniciativas.
A representação da mulher em testes médicos continua baixa ao longo dos anos. Essa desigualdade fica ainda mais evidente em ensaios de dispositivos cardiovasculares, como bombas e stents, onde apenas 29% dos envolvidos avaliados eram mulheres.
Se as pesquisas não refletem adequadamente a experiência feminina, as suas diferenças nas respostas à dor e nas necessidades de tratamento podem não ser corretamente reconhecidas, o que abre caminho para intervenções que não atendem às suas especificidades.
Ausência de mecanismos precisos para medir a dor
A percepção da dor é uma questão subjetiva, e a falta de medições objetivas torna o relato do paciente fundamental para diagnosticá-lo. Essa dependência contribui para o fortalecimento do viés de gênero, fazendo com que preconceitos e desinformação influenciem na forma como a dor é interpretada e tratada.
Diante disso, mulheres com mialgia, por exemplo, podem ser diagnosticadas tardiamente, pois são desacreditadas quando relatam seus sintomas.
Assim, vão a diferentes consultórios, sem conseguir identificar o que realmente está afetando o seu bem-estar. Esse processo se torna extremamente demorado e frustrante, retardando o tratamento e amplificando o sofrimento, já que elas ficam sem a assistência necessária para lidar com a doença.
Como oferecer um atendimento mais humanizado para as mulheres?
Um atendimento humanizado é fundamental, uma vez que valoriza a individualidade do paciente, garante um tratamento respeitoso e estabelece um vínculo de confiança, que possibilita diagnósticos mais precisos e manejos mais eficazes das condições de saúde. Acompanhe, abaixo, como proporcionar uma consulta humanizada para suas pacientes.
Pratique a escuta ativa
Um atendimento acolhedor começa por uma escuta ativa. É importante que os profissionais de saúde dediquem tempo para ouvir atentamente as queixas e preocupações das mulheres, demonstrando empatia e compreensão.
Essa abordagem permite que a paciente se sinta mais valorizada e respeitada, tornando-se mais confiante para abordar detalhes de seus sintomas, facilitando a identificação da gravidade e origem de sua dor.
Estude as particularidades das doenças femininas
A educação contínua é indispensável para você entender melhor como o viés de gênero pode influenciar na avaliação da dor. Portanto, participe de workshops e cursos sobre as particularidades das patologias que afetam as mulheres, como endometriose ou a fibromialgia, para uma abordagem mais informada.
Reserve tempo para conversa na consulta
Em cada consulta, reserve tempo suficiente para que as pacientes expliquem seus sintomas. Atendimentos mais longos permitem que os profissionais explorem não apenas a dor, mas também os fatores emocionais e sociais que podem impactar na saúde da mulher.
Implemente protocolos de dor
Desenvolver e implementar protocolos que considerem a dor feminina é essencial para evitar erros de diagnósticos. Para isso, é importante utilizar escalas de dor que reconheçam as diferenças na expressão de desconforto entre os gêneros.
Além disso, deve-se levar em conta o histórico médico das pacientes, incluindo condições preexistentes e tratamentos anteriores, para garantir um atendimento mais abrangente e personalizado.
A persistência de estereótipos de gênero na sociedade, aliada à sub-representação feminina nos estudos clínicos, prejudica o acolhimento nos consultórios, levando muitos profissionais a minimizar a dor das mulheres. Para transformar essa realidade, é fundamental adotar práticas e ferramentas que promovam um atendimento mais humanizado e atento às necessidades específicas das pacientes.
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