Person in white coat holding a printed ECG heart rhythm graph in both hands.

Leitura de ECG: aprenda a interpretar o exame

23/6/2026
10
10
Minutos de leitura
por:
equipe afya educacao médica
Equipe Afya Educação Médica
Compartilhar
Copy to Clipboard.
Compartilhar url

Domine as ondas, segmentos e intervalos do eletrocardiograma. Um guia introdutório essencial para quem sonha com essa área da Medicina.

O ECG registra a atividade elétrica do coração por meio de 12 derivações. Para interpretá-lo, avalie: qualidade técnica do traçado, frequência cardíaca, ritmo, eixo elétrico, morfologia das ondas P, QRS e T, e intervalos PR e QT. Uma abordagem sistematizada evita erros e aumenta a precisão diagnóstica.

O que é o ECG e como ele funciona?

O eletrocardiograma (ECG) é um exame não invasivo que registra a atividade elétrica do coração ao longo do tempo. O coração possui um sistema de condução elétrica bem ordenado: o impulso é gerado no nó sinoatrial (nó SA), localizado no átrio direito, e percorre o miocárdio de forma coordenada, estimulando a contração muscular.

Esse impulso elétrico é captado por eletrodos fixados em pontos específicos da superfície corporal e transformado em traçados gráficos sobre papel milimetrado. O resultado são as 12 derivações que formam o ECG convencional, cada uma registrando a atividade elétrica a partir de um ângulo diferente do coração.

Leia também sobre quais são os melhores cursos de Cardiologia.

Quais são as 12 derivações do ECG e o que cada uma avalia?

As 12 derivações do ECG convencional são divididas em dois grupos principais: derivações periféricas (membros) e derivações precordiais (torácicas). Avaliar todas em conjunto é fundamental para uma interpretação completa.

Derivações periféricas

As derivações periféricas registram a atividade elétrica no plano frontal do coração. São divididas em:

Derivações bipolares (Triângulo de Einthoven):

  • DI (D1): diferença de potencial entre braço direito (–) e braço esquerdo (+)
  • DII (D2): diferença de potencial entre braço direito (–) e perna esquerda (+)
  • DIII (D3): diferença de potencial entre braço esquerdo (–) e perna esquerda (+)

Derivações unipolares aumentadas:

  • aVR: potencial absoluto no braço direito
  • aVL: potencial absoluto no braço esquerdo
  • aVF: potencial absoluto na perna esquerda

Derivações precordiais

As derivações precordiais avaliam o plano horizontal do coração, com foco nas regiões anteriores e laterais do ventrículo esquerdo:

Derivação

Posicionamento

Região avaliada

V1

4º espaço intercostal direito, borda esternal

Átrios, septo, VD

V2

4º espaço intercostal esquerdo, borda esternal

Septo interventricular

V3

Entre V2 e V4

Septo interventricular (zona de transição)

V4

5º espaço intercostal esquerdo, linha hemiclavicular

Ápice do VE

V5

5º espaço intercostal esquerdo, linha axilar anterior

Parede lateral do VE

V6

5º espaço intercostal esquerdo, linha axilar média

Parede lateral do VE

VD = ventrículo direito; VE = ventrículo esquerdo.

Como preparar o exame corretamente antes de interpretar o traçado?

A interpretação do ECG começa antes mesmo de olhar para o traçado. Uma preparação técnica adequada evita artefatos e erros de leitura que podem comprometer o diagnóstico.

Checklist pré-interpretação:

  1. Confirmar dados de identificação do paciente (nome, idade, data do exame);
  2. Colher anamnese dirigida: sintomas atuais, medicamentos em uso, comorbidades;
  3. Verificar a calibração do equipamento: velocidade padrão de 25 mm/s e amplitude de 1 mV = 10 mm;
  4. Confirmar o posicionamento correto dos eletrodos nos membros e no precórdio;
  5. Observar a qualidade do traçado: artefatos de movimento, interferência elétrica ou eletrodo solto invalidam a leitura;

Atenção: em situações de urgência, a posição incorreta dos eletrodos é uma das causas mais comuns de laudos equivocados. Sempre revise antes de interpretar.

Como interpretar o ECG passo a passo?

A abordagem sistematizada é a chave para uma leitura de ECG confiável e rápida. Siga os passos abaixo:

1. Avalie a frequência cardíaca (FC)

No papel padrão (25 mm/s), cada quadrado grande equivale a 0,20 s e cada quadrado pequeno a 0,04 s. Para calcular a FC:

  • Método dos 300: divida 300 pelo número de quadrados grandes entre dois complexos QRS consecutivos;
  • Método dos 1500: divida 1500 pelo número de quadrados pequenos entre dois picos R consecutivos (mais preciso para ritmos regulares).

Valores de referência:

  • FC normal: 60 a 100 bpm
  • Bradicardia: < 60 bpm
  • Taquicardia: > 100 bpm

2. Analise o ritmo cardíaco

O ritmo é considerado sinusal normal quando:

  • A onda P precede cada complexo QRS
  • A onda P é positiva em DII e negativa em aVR
  • O intervalo P–P é regular
  • Todo P é seguido de um QRS

Ritmos irregulares, ausência de ondas P ou complexos QRS alargados são sinais de alerta para arritmias.

3. Determine o eixo elétrico do QRS

O eixo elétrico representa a direção predominante da despolarização ventricular. Para uma avaliação rápida:

Resultado em DI e aVF

Interpretação

DI (+) e aVF (+)

Eixo normal (0° a +90°)

DI (+) e aVF (–)

Desvio do eixo para a esquerda

DI (–) e aVF (+)

Desvio do eixo para a direita

DI (–) e aVF (–)

Eixo indeterminado ("noroeste")

4. Avalie as ondas individualmente

A leitura das ondas P, QRS e T ajuda a entender como o estímulo elétrico percorre o coração. Observar a morfologia de cada uma delas permite reconhecer alterações atriais, ventriculares, isquêmicas e metabólicas com mais segurança.

Onda P:

  • Duração normal: até 0,12 s (3 quadradinhos)
  • Amplitude normal: até 2,5 mm
  • Alterações sugerem: sobrecarga atrial, bloqueio sinoatrial

Complexo QRS:

  • Duração normal: 0,06 a 0,10 s
  • QRS > 0,12 s indica bloqueio de ramo ou condução aberrante
  • Avaliar amplitude para identificar hipertrofia ventricular

Onda T:

  • Representa a repolarização ventricular
  • Deve ser positiva em DI, DII, V3–V6
  • Inversão de onda T pode indicar isquemia, sobrecarga ventricular ou distúrbios metabólicos

5. Meça os intervalos e segmentos

Os intervalos e segmentos do ECG trazem informações essenciais sobre condução elétrica e repolarização ventricular. 

Medir PR, QRS, QT e avaliar o segmento ST ajuda a identificar bloqueios, alterações de repolarização e sinais de isquemia aguda.

Intervalo/Segmento

Valor normal

Alteração sugestiva

Intervalo PR

0,12 a 0,20 s

Bloqueio AV (prolongado)

Intervalo QRS

0,06 a 0,10 s

Bloqueio de ramo (alargado)

Intervalo QT corrigido (QTc)

< 440–460 ms

Risco de arritmia grave (prolongado)

Segmento ST

Isoelétrico

Supra ou infradesnível → isquemia/lesão

Quais são os achados mais críticos no ECG de urgência?

Em situações de emergência, alguns padrões eletrocardiográficos exigem reconhecimento imediato:

  • IAMCSST: supradesnivelamento de ST em derivações contíguas;
  • Fibrilação ventricular (FV): traçado caótico sem complexos QRS identificáveis, parada cardiorrespiratória;
  • Taquicardia ventricular (TV): complexos QRS alargados e rítmicos, FC > 100 bpm;
  • Bloqueio AV total (3º grau): dissociação completa entre ondas P e complexos QRS;
  • Hipercalemia grave: ondas T apiculadas, QRS alargado, ausência de onda P;
  • Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW): intervalo PR curto + onda delta no início do QRS.

Quais ferramentas usar para a interpretação do ECG?

A prática constante é insubstituível, mas algumas ferramentas podem apoiar o processo de aprendizado e leitura em situações de dúvida:

  • ECG Calc (aplicativo para smartphones): auxilia no cálculo de intervalos e FC;
  • Six Second ECG (Skillstat): simulador online de traçados para treino;
  • Tabela de Davignon: referência para valores normais em ECG pediátrico;
  • Plataformas de educação médica continuada: cursos online e pós-graduações com foco em eletrocardiografia e cardiologia clínica.

Quer dominar a interpretação do ECG com profundidade?

A leitura sistematizada do eletrocardiograma é uma habilidade que se constrói com estudo dirigido, prática supervisionada e atualização contínua. 

Se você quer ir além do básico e desenvolver segurança diagnóstica em cardiologia clínica, a Afya Educação Médica oferece pós-graduações e cursos de atualização voltados para médicos que buscam excelência na prática clínica.

Na Pós-Graduação em Cardiologia da Afya, você aprofunda o estudo dos exames cardiovasculares, incluindo ECG, ecocardiograma e holter, com foco em achados clínicos relevantes, abordagem terapêutica e tomada de decisão em situações complexas. O conteúdo é desenvolvido por especialistas e pensado para a rotina real do médico, seja no ambulatório, na enfermaria ou no plantão.

FAQ

O ECG é suficiente para diagnosticar um infarto?

O ECG é uma ferramenta fundamental no diagnóstico do infarto agudo do miocárdio (IAM), especialmente na identificação do IAMCSST. No entanto, o diagnóstico definitivo deve combinar ECG, marcadores de necrose miocárdica (troponina) e clínica do paciente. Um ECG normal não exclui IAM sem supradesnivelamento de ST (IAMSCSST).

Qual a diferença entre frequência cardíaca e ritmo no ECG?

A frequência cardíaca indica o número de batimentos por minuto e é calculada a partir dos intervalos entre complexos QRS. O ritmo avalia a regularidade e a origem dos batimentos, se são sinusais, ectópicos ou provenientes de uma via anômala. Os dois parâmetros são complementares e devem ser analisados juntos.

O que significa um QTc prolongado no ECG?

O intervalo QT corrigido (QTc) representa o tempo de repolarização ventricular. Quando prolongado (> 440 ms em homens e > 460 ms em mulheres), aumenta o risco de arritmias graves como a torsades de pointes. Pode ser causado por medicamentos, distúrbios eletrolíticos (hipocalemia, hipomagnesemia) ou condições genéticas (síndrome do QT longo).

É possível aprender a interpretar ECG sem especialização?

Sim. Todo médico, independentemente da especialidade, deve dominar a interpretação básica do ECG, incluindo reconhecimento de arritmias comuns, IAMCSST e bloqueios de ramo. Isso é amplamente ensinado na graduação e no internato. A especialização aprofunda o conhecimento para casos mais complexos e situações específicas de cada área de atuação.

Como treinar a leitura de ECG na prática?

A melhor estratégia é a exposição sistemática a traçados reais com feedback supervisionado. Simuladores online, casos clínicos de livros especializados, plantões supervisionados e cursos de atualização em eletrocardiografia são recursos eficazes. O método mais recomendado é sempre usar a mesma sequência de análise — frequência, ritmo, eixo, ondas e intervalos — para criar automatismo.

Quando o ECG pode ser normal mesmo com doença cardíaca?

O ECG pode ser normal em várias condições cardíacas, como nas fases iniciais do IAM sem supradesnivelamento de ST, em arritmias paroxísticas fora do episódio e em cardiopatias estruturais sem repercussão elétrica. Por isso, o ECG deve sempre ser interpretado em conjunto com a clínica, outros exames e a evolução do paciente.

Referências

Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Diretriz de Interpretação do Eletrocardiograma de Repouso. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2016.

Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). I Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2013.

Stylized uppercase letter A in bold magenta color on a transparent background.
Artigo por:
Equipe Afya Educação Médica
Quer saber mais?
Selecionamos alguns posts que você pode gostar!