Handover e Handoff: tudo o que você precisa saber

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Cada área de trabalho envolve seus desafios, mas não há como negar que a saúde é um campo de muita fragilidade e que requer atenção redobrada. Isso fica ainda mais evidente quando nos referimos aos momentos de handover e handoff.

É natural que o plantonista sinta dificuldades na sua rotina, sobretudo ao pegar um caso que não estava sob sua responsabilidade. Às vezes é difícil encontrar as fichas de cada paciente, em outras situações os dados não são tão claros ou existe uma insegurança na hora de definir o melhor diagnóstico.

Por isso, é preciso ficar mais atento ao assunto para tentar prevenir erros médicos e melhorar a qualidade do serviço. Então, não deixe de conferir o conteúdo a seguir!

O que é handover?

O termo handover significa a passagem de caso de um responsável para outro durante a troca de plantão. Na prática, isso acontece quando um profissional transfere para outro o gerenciamento dos casos que estavam sob sua responsabilidade.

Normalmente, isso acontece depois de uma jornada de 12 ou 24 horas de trabalho, dependendo do regimento interno da instituição de saúde em que o profissional atua.

Embora essas trocas de turno sejam muito frequentes na rotina hospitalar, é importante que aconteçam com a devida garantia da continuidade de assistência — o que, inclusive, faz parte do Código de Ética dos médicos, enfermeiros e assim por diante.

O que é handoff?

Seguindo a ideia de transferência de responsabilidades, o handoff - ou passagem de caso - é definido por duas situações:

  • quando o paciente é transferido de um lugar para outro dentro de um mesmo estabelecimento;
  • quando o paciente é deslocado (ou se desloca) para uma instituição de saúde diferente.

Em ambos os casos, o objetivo deve ser garantir que as informações sejam transmitidas de maneira completa e segura. Isso é fundamental para evitar que falhas de comunicação comprometam a saúde e o bem-estar dos pacientes.

Para citar um exemplo de alto risco, podemos considerar a passagem de uma pessoa do centro cirúrgico para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Nesse contexto, costumam ocorrer diversos handoffs como do cirurgião para o intensivista, do anestesista para um fisioterapeuta, de um enfermeiro para outro etc.

Já a transferência de um paciente em grave estado para uma outra unidade de saúde também exige muita cautela. É um tipo de ocorrência frequente, por exemplo, em cidades menores onde os hospitais não possuem tantos recursos. Logo, depois de passar por uma avaliação, os médicos podem optar pela transferência para um centro maior.

Sendo assim, a prática do handoff é bastante comum e conhecida no meio médico. No entanto, não se deve esquecer da sua grandeza e complexidade. Um handoff feito de maneira inadequada é capaz de causar muitos prejuízos, tanto para a vida do paciente quanto para a credibilidade do profissional ou para a imagem do hospital.

Por que é preciso cuidado nas passagens de plantão e de caso?

A questão mais relevante dentro desse assunto como um todo é sempre preservar a saúde do paciente e a ética profissional. O intuito de todos os cuidados nas passagens relacionadas aos pacientes devem ser exatamente esses.

É claro que se espera que todos os profissionais envolvidos nos mais diversos casos tenham esse tipo de consciência e responsabilidade. Acontece que alguns fatores podem influenciar a eficácia e os resultados do handoff ou handover. Vamos citar os principais exemplos, a seguir:

Desgaste da rotina médica

Um dos principais fatores é o desgaste ao qual a atividade médica está sujeita. Especialmente os plantonistas, que vivem uma rotina cansativa física e mentalmente, o que abre portas para os sintomas da exaustão, como a falta de concentração, estresse, dificuldade de comunicação, desatenção, entre outros.

Falhas de comunicação

Por outro lado, infelizmente ainda existem os profissionais que não prezam por uma comunicação completa, detalhada e objetiva. Tal fato, na hora de passar o plantão para uma outra equipe, por exemplo, afeta o entendimento de informações muito importantes.

Atrasos e falta de recursos

Outro fator que pode ser considerado são os atrasos. Esse tipo de ocorrência só prejudica que as transferências aconteçam de forma segura e eficiente. A reunião para troca de equipe com tempo e tranquilidade é crucial para um bom resultado.

A falta de recursos e a superlotação das unidades também são quesitos que merecem destaque. Muitas vezes é complexo lidar com essa realidade, mas ela não pode ser um motivo para que práticas como handover e handoff ocorram de qualquer forma.

Em geral, a não-valorização desse momento tão delicado e significativo é o que acaba prejudicando a sua eficácia. De toda forma, é crucial ter a consciência de que a passagem de caso é muitas vezes indispensável e que a passagem de plantão é obrigatória, e elas devem ser feitas com segurança.

O próprio CFM (Conselho Federal de Medicina) apresenta no artigo 8o da Resolução no 2.077/44 tal obrigatoriedade: "é obrigatória a passagem de plantão, médico a médico, na qual o profissional que está assumindo o plantão deve tomar conhecimento do quadro clínico dos pacientes que ficarão sob sua responsabilidade."

O artigo ressalta também a necessidade do registro completo da assistência prestada a cada paciente, criando um prontuário médico que identifique todos os médicos envolvidos e dados do atendimento.

Como realizar as práticas de maneira correta durante o plantão?

Como foi dito, a correria do cotidiano vivido em um ambiente hospitalar, na maioria das vezes, é considerada um obstáculo à realização dos procedimentos corretos da prática clínica. No caso dos plantões, essa realidade pode ser ainda mais acentuada.

Contudo, ter esse tipo de preocupação e cuidado deve ser considerado com uma habilidade clínica do profissional. Não se trata apenas de uma tarefa corriqueira de comunicação, mas de uma atividade determinante para a continuidade e solução dos casos e para o bem-estar dos pacientes.

Lembrar-se dos riscos envolvidos e de como a sua prudência vai beneficiar o paciente é um dos passos para melhorar a sua atuação. Saiba mais sobre isso a seguir.

Quais são os riscos do handover e do handoff?

É difícil prever exatamente quais riscos estão envolvidos em cada caso, já que a situação do paciente e os tipos de erros cometidos no handover ou handoff podem variar muito. De forma geral, existem alguns perigos que estão relacionados à possibilidade de:

  • tratamento inadequado (que pode gerar diversas complicações, até mesmo com o risco de morte);
  • prolongamento da internação sem necessidade;
  • realização de procedimentos desnecessários;
  • aumento dos custos hospitalares;
  • insatisfação do paciente e de sua família;
  • atrasos de diagnóstico, tratamento e alta.

A maior dificuldade é nem sempre ser possível reverter as consequências de um handover ou handoff malfeito. O ideal é ficar alerta de que a saúde de uma pessoa é algo bastante frágil para não receber a devida atenção.

Como handover e handoff podem ser benéficos ao paciente?

Depois de conhecer alguns dos riscos e prejuízos possíveis, fica evidente que a prática mais consciente do trabalho beneficia o paciente. Além da tranquilidade no tratamento que está recebendo, ele se sente mais seguro ao sentir o entrosamento da equipe e estar bem informado sobre seu caso.

Existem diversas reclamações em que o paciente escuta orientações diferentes de cada profissional que o atende. Imagine se um médico estabelece um plano de tratamento com uma certa medicação. Então, a equipe do plantão seguinte não percebe nenhuma melhoria e resolve mudar o medicamento.

Esse é um tipo de situação bastante comum e que muitas vezes acarreta na piora do paciente. Por exemplo, se estamos tratando de um antibiótico, pode ser que essa atitude favoreça a criação de bactérias mais resistentes.

Sem contar que os danos para a saúde do paciente podem ser muito piores do que isso. Portanto, o cuidado com as passagens de plantão e de caso é capaz de trazer benefícios inimagináveis, sobretudo quando se trata de quadros que envolvem maior risco de morbimortalidade.

Até mesmo a família e os acompanhantes são beneficiados. Em tempos em que se fala tanto de atendimento humanizado, ter essa cautela é uma das formas de proporcionar maior segurança a quem está recebendo o serviço prestado pela instituição de saúde.

Existem melhores práticas de passagem de plantão e de caso?

Como vimos, o handover e o handoff são questões que requerem maiores esforços para sua melhoria contínua. Apesar de ser difícil definir uma fórmula para o sucesso dessas práticas, a urgência é que os profissionais da área estejam cientes dessa necessidade.

Existem alguns métodos e soluções que podem gerar efeitos positivos, sendo que a eficácia de qualquer um deles depende mesmo é do comprometimento dos seus responsáveis. Conheça abaixo algumas propostas interessantes.

MIST

Essa técnica é muito utilizada por médicos para avaliar situações de emergência e tentar identificar os próximos passos. É uma maneira prática de descrever a ocorrência para que um outro profissional possa prosseguir com o tratamento.

A origem do termo MIST é o acrônimo em inglês das quatro palavras: Mechanism (mecanismo), Injury/Illness (lesão/doença), Signs and Symptoms (sinais e sintomas) e Treatment (tratamento).

Esses fatores são cruciais para fornecer informações mais precisas e detalhadas. Veja a seguir o que cada um deles envolve.

M — Mechanism - Mecanismo

Essa é a parte destinada à identificação do que ocorreu, das causas e motivações que influenciaram o estado de saúde do paciente.

Por exemplo, se houve algum tiroteio e a pessoa foi baleada em determinada região do corpo. Ou, então, se a circunstância for um acidente de carro que provocou algum ferimento, uma queda que ocasionou a fratura de um osso, entre outros.

I — Injury/Illness - Lesão/doença

Essa é a hora de detectar qual foi a complicação decorrente do mecanismo. No caso de um idoso cair de uma escada, a lesão pode variar desde um pequeno corte na cabeça até a fratura do fêmur, por exemplo.

Já se for uma vítima de ingestão de uma substância tóxica, a lesão provavelmente está relacionada ao esôfago e estômago, queimaduras em partes do sistema digestivo, entre outras reações sistêmicas.

Às vezes, é difícil apontar em um primeiro momento quais foram todos os prejuízos que ocorreram em consequência do fato descrito no mecanismo. Pode ser necessário fazer alguns exames ou outros procedimentos, mas o mais importante é tentar deixar tudo o mais claro possível.

S — Signs and Symptoms - Sinais e sintomas

Agora é o momento de responder o que aparentemente há de errado com o paciente, ou seja, quais são os sinais e sintomas que indicam que algo não está bem. Dentre as ocorrências comuns estão vômitos, dores, lesões visíveis, dificuldade de respiração, rebaixamento e até confusão mental.

Esse último ponto é um dos que merecem maior atenção, pois quando a vítima está consciente é mais fácil colher esse tipo de dado. Fazer uma anamnese completa é importante para identificar os sintomas. Quando isso não é possível, o profissional deve utilizar seus conhecimentos para tal.

T — Treatment - Tratamento

Por fim, é preciso fazer um relatório a partir do seu diagnóstico, indicando que tipos de cuidados você tomou antes de passar o caso para outro responsável. No caso de um acidente na estrada, por exemplo, o socorrista também deve assinalar quais foram as suas providências.

Ser preciso e claro nessa parte é primordial para evitar falhas de comunicação e outros tipos de erros. A pessoa que vai receber o caso deve saber com exatidão quais foram as atitudes tomadas para dar início a uma nova etapa de tratamento do paciente. A indicação precisa dos medicamentos também é imprescindível.

Vale ainda lembrar que algumas pessoas adicionam a letra "D" antes do acrônimo MIST, que significa detalhes (details). Nesse tópico pode-se adicionar informações como nome, idade e sexo.

Contudo, isso depende da instituição de saúde adotar ou não esse tópico na técnica MIST. Uma vez adotado, é pertinente que haja uma padronização dos processos para que a falta de dados não seja prejudicial.

SBAR

Outra ferramenta bem semelhante à MIST (ou DMIST) é a SBAR, que já foi implantada em alguns hospitais brasileiros — como no Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Seu propósito também é que as informações sejam transmitidas de modo eficiente, sobretudo nas transferências internas entre equipes multidisciplinares. O acrônimo desta vez tem significados diferentes, mas com orientações parecidas. Confira:

S — Situação

É a descrição da condição em que se encontra o paciente, tipo: sinais vitais, reclamações, preocupações percebidas etc.

B — Base do Cenário

É composta pelos dados específicos do caso, como história, hipótese diagnóstica, suporte ventilatório, entre outros.

A — Análise

Relativo à avaliação do caso, fornecendo dados para a tomada de decisão sobre o tipo de tratamento mais indicado. Deve descrever os riscos, alergias, medicamentos e dispositivos invasivos já utilizados etc.

R — Recomendação

São as sugestões que os últimos responsáveis recomendam para a próxima equipe que deve receber o caso.

Lean Six Sigma

Para quem não conhece, a filosofia Lean tem origem japonesa e foi criada para o sistema de manufatura de uma empresa fabricante de automóveis, a Toyota. Seu princípio básico é a redução de desperdícios como forma de aumentar a qualidade e gerar maior valor para o cliente.

Quando percebeu-se a eficiência dessa metodologia, outros setores começaram a implementá-la — inclusive a área da Saúde e os hospitais, sob o nome de Lean Hospital ou Lean Healthcare.

Dentre os seus desdobramentos, encontramos ainda um modelo adaptado para as passagens de responsabilidades: o Lean Six Sigma. Seu objetivo é garantir a continuidade da assistência com base na organização das informações a serem transmitidas.

As principais fragilidades dos processos de passagem estão na dependência de canais humanos para transmissão e recepção, além da grande variabilidade dos casos. Isso tende a dificultar um pouco as ocorrências de handover e handoff.

Diante disso, a integração entre Lean e Six Sigma propõe a eliminação de desperdícios, utilizando 5 princípios:

  • definir valor;
  • entender a cadeia de valor;
  • criar um fluxo;
  • puxar o fluxo;
  • buscar a perfeição.

Para completar, é preciso aplicar uma metodologia bem-estruturada e detalhada que possa resolver problemas e reduzir a variação dos processos. No fim das contas, isso quer dizer olhar para o processo de forma mais profunda e adotar uma nova sistematização para que ele ocorra de forma mais organizada e correta.

Como exemplo, podemos citar práticas como a definição de intervalos para passagem de plantão (ex: com o máximo de 20 minutos, sendo 10 antes e 10 após o seu início), de documentos obrigatórios para que isso aconteça e de uma figura fiscalizadora como um "guardião da passagem de plantão".

Comunicação, modelos mentais e tabelas

Há muitos hospitais que contam com bons recursos e oferecem uma ótima estrutura — com equipamentos modernos, abundância de materiais e vários profissionais disponíveis. Ainda assim, quando a comunicação não é uma prioridade, há grande risco de incidentes.

Na verdade, em todos os setores e para as mais diversas atividades dentro de qualquer tipo de empresa, esse é um ponto diferencial. Falando em saúde, passagem de plantão e transferência de pacientes, isso se torna ainda mais substancial.

Modelos mentais

Um dos obstáculos nesse caminho são os chamados modelos mentais. Isso quer dizer que cada pessoa tem sua forma de enxergar, interpretar e entender um fato. Mesmo que estejam observando um mesmo evento, cada um pode descrevê-lo de maneira diferente.

A partir disso, as pessoas têm formas distintas de organizarem seus pensamentos. Isto é, o que está explícito ou implícito para um pode não estar para outro — o que é capaz de causar muita confusão na hora que o próximo plantonista ou equipe tiver que captar aqueles dados e tomar as suas decisões.

Logo, pode-se adotar dois caminhos para evitar esse tipo de problema e melhorar a captação das informações, beneficiando o que verdadeiramente importa, que é o tratamento do paciente.

A primeira opção é contar com a ajuda de uma outra pessoa, como um médico ou outro profissional de saúde, para que juntas elas possam avaliar cada situação e reduzir os erros decorrentes da diferença de modelos mentais. Assim, fica mais fácil evitar distorções ou que algo passe despercebido — especialmente em casos complexos.

A segunda alternativa é fazer com que haja uma adaptação objetiva entre o receptor e o transmissor do plantão. O primeiro muitas vezes se perde em meio a tantos dados, o que requer que o segundo seja mais claro e evite uma complexidade desnecessária de referências.

Enfim, a ideia é não deixar que o modo como cada profissional percebe e transmite as informações seja um empecilho para a atuação do próximo responsável pelo quadro.

Formalização da passagem

Outro tipo de ritual que dificulta a quebra da continuidade dos dados é estabelecer critérios para a formalização da passagem de plantão ou de caso. Porém, a instituição precisa se comprometer seriamente com essa sistematização para conseguir usufruir dos seus benefícios.

Nesse sentido, algumas ações que podem ajudar são:

  • fazer avaliações periódicas para melhorar os processos cada vez mais, identificando erros e acertos;
  • padronizar formulários, tabelas e outros documentos para que todos sejam preenchidos igualmente;
  • deixar claro que somente a comunicação verbal pode ser falha e a falta de registros bastante perigosa;
  • definir horários fixos para reunião e troca da equipe responsável;
  • tomar cuidado com barulhos e distrações que possam atrapalhar a percepção e transmissão dos fatos;
  • criar um checklist básico que deve ser seguido para coordenar as reuniões;
  • agendar treinamentos constantes para que a equipe fique sempre atualizada quanto aos procedimentos de passagem;
  • estabelecer algum tipo de fiscalização para verificar se os padrões estão ou não sendo cumpridos.

Em geral, esses procedimentos ajudam ainda a melhorar o clima organizacional, no sentido de facilitar a rotina médica e promover o bem-estar e a qualidade do serviço.

Nesse contexto, vale ainda ficar atento às políticas de trabalho e ao cumprimento dos horários para que horas extras não sejam mais um motivo para fadiga mental e física — o que é capaz de gerar graves consequências para o handover e handoff.

Por fim, a ideia principal deve ser reavaliar como esses processos acontecem no seu ambiente de trabalho, tentando buscar maneiras de aperfeiçoá-los e fazer com que seus resultados sejam a cada dia melhores. Afinal, um médico de sucesso não é só aquele que conquista uma boa posição, mas que faz uso dela para promover melhorias.

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