Fibromialgia: a importância de uma visão integrativa sobre a doença

A fibromialgia é uma síndrome complexa com inúmeras possibilidades de causas, fatores de risco e tratamentos. Por um longo período, a doença foi considerada apenas uma somatização de outras condições, tais como depressão e transtornos do sono. Entretanto, por meio de exames cerebrais, é possível observar alterações no volume da substância cinzenta e no padrão de conectividade dos circuitos neuronais desses pacientes durante a percepção dos sintomas.

Hoje, sabe-se que a dor é real e, na maioria das vezes, é ela que desencadeia outras alterações emocionais e fisiológicas. Portanto, essa patologia afeta a qualidade de vida e a capacidade funcional de forma sistêmica, sendo fundamental o olhar integrativo sobre a doença.

Continue acompanhando nosso post para saber mais sobre o que é a fibromialgia, seus sintomas e tratamentos, além de entender como tratar os pacientes de maneira mais integrativa.

Definição e sintomas

Entre as doenças reumatológicas, a fibromialgia é uma das mais frequentes. Caracteriza-se por uma condição crônica músculo-esquelética, de etiologia desconhecida, que tem como principal sintoma a dor generalizada. Grande parte dos pacientes relata sentir essa dor em pelo menos 18 áreas distribuídas pelo corpo. Outros sintomas comuns são transtornos do sono, cefaleia, dificuldade de memorização e distúrbios do humor.

Algumas comorbidades podem ser associadas com a presença da fibromialgia, apesar dessa relação ainda não ter sido totalmente estabelecida. Dentre essas condições podemos citar a depressão, ansiedade, síndrome do cólon irritável e fadiga crônica. Embora o diagnóstico seja complexo, muitas vezes é possível distinguir a fibromialgia de outras doenças que têm como queixa principal a dor crônica. Isso acontece pela maior sensibilidade a estímulos dolorosos (hiperalgesia) e a sensação de dor por estímulos não dolorosos (alodinia), que os pacientes relatam frequentemente.

Fatores de risco para a fibromialgia

Por se tratar de uma síndrome com etiologia desconhecida, não é possível elencar as causas pelas quais a fibromialgia se desenvolve. Contudo, alguns fatores de risco já são conhecidos. O primeiro deles é o gênero: mulheres apresentam 8 a 10 vezes mais chances de desenvolver a doença do que os homens.

O histórico familiar também é um fator de risco, uma vez que pacientes que têm familiares próximos que desenvolveram a doença são mais propensos a apresentar os sintomas. E, por último, a presença de outras comorbidades como a artrite reumatoide e o lúpus eritematoso, que também podem ser associados a evolução da doença.

Tipos de tratamento

Como as causas da fibromialgia são desconhecidas, o estabelecimento do tratamento torna-se desafiador e o manejo clínico ainda se encontra indefinido. Diretrizes clínicas, como a European League Against Rheumatism, recomendam um tratamento multidisciplinar e de acordo com a evolução do paciente. Intervenções farmacológicas e não-farmacológicas são válidas, desde que se adequem às necessidades e tipos de sintomas. Para isso, o cuidado humanizado torna-se mais do que necessário, associado ao olhar empático sobre as dores da doença.

Tratamento farmacológico

Dentre as possibilidades de tratamento farmacológico, estão os antidepressivos. Alguns exemplos são os inibidores seletivos de receptação da serotonina, inibidores seletivos da receptação de noradrenalina e serotonina e outros medicamentos para tratar os distúrbios do sono. Esses fármacos são utilizados em doses menores do que a usual, focando primariamente no controle da dor. Antidepressivos tricíclicos e relaxantes musculares têm se mostrado bastante eficazes na diminuição da dor, controle do ciclo do sono e melhora da qualidade de vida dos pacientes com fibromialgia.

Tratamento não-farmacológico

As abordagens não farmacológicas são muito comuns no tratamento da fibromialgia e têm impacto positivo na qualidade de vida da maioria dos pacientes. O mais eficaz desses tratamentos é a prática de atividade física. Embora os indivíduos possam sentir bastante dificuldade no começo, é importante que o estímulo seja gradual e com acompanhamento da duração, intensidade e frequência.

Os exercícios melhoram a força muscular, a percepção da dor generalizada e a funcionalidade dos membros. Outro ponto importante a ser considerado é o manejo do sono. Princípios básicos de higienização do sono e identificação de outros transtornos do ciclo são fundamentais, uma vez que os pacientes sentem uma melhora perceptível quando conseguem dormir bem. Fisioterapia, acupuntura, quiropraxia e massagens também podem ter impacto positivo no tratamento da fibromialgia, considerando que cada paciente responde individualmente ao tratamento e relata a melhora dos sintomas de forma única.

Visão integrativa

Como a fibromialgia tem um diagnóstico exclusivamente clínico, sem exames laboratoriais específicos, a conduta médica adequada já se inicia na identificação dos sintomas. Escutar as queixas e percepções dos indivíduos deve ser natural, permitindo que a anamnese seja adequada e logo no início do desenvolvimento da patologia. Programas de educação dos pacientes são úteis e necessários para que essas pessoas conheçam os princípios da doença, como e quando as dores se intensificam e como participar mais ativamente do tratamento. Dessa forma, é mais simples estabelecer quais intervenções, sejam elas farmacológicas ou não, serão adotadas.

De acordo com um estudo coorte publicado pela revista Frontiers in Psychiatry, 70% dos pacientes com fibromialgia apresentam depressão e 60% tem sintomas de ansiedade. Como já dissemos, considerar a depressão como uma causa para fibromialgia é errado, entretanto, ignorar essa condição também é um equívoco. O paciente deve ser cuidado sistemicamente, pois a depressão e outros distúrbios emocionais podem piorar a percepção da dor, diminuir a disposição para atividades físicas e desregular o ciclo do sono. Assim, um tratamento que integre a equipe multidisciplinar de saúde é essencial para um cuidado efetivo.

Apesar de não existir uma especialidade médica específica para o diagnóstico de fibromialgia, algumas das áreas que apresentam mais recursos para lidar com esse quadro clínico são: reumatologistas, fisiatras, neurologistas e especialistas em terapia da dor. A fibromialgia não possui uma causa ou tipos de tratamentos específicos. Portanto, considerar todas as dimensões do indivíduo com o objetivo de promover a saúde de maneira sistêmica pode ser a chave para o tratamento efetivo. Alinhar as metodologias disponíveis da medicina tradicional com alternativas complementares pode não somente auxiliar no controle dos sintomas da doença, mas também contribuir para uma maior confiança do paciente.

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