Como a dermatoscopia ajuda a identificar as principais doenças inflamatórias da pele?

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Para falar sobre as primeiras elementares e dermatoses mais frequentes da pele, do cabelo e da unha, a equipe IPEMED preparou uma série de artigos que incluem algumas das dermatoses e tumores comuns na prática dermatológica, além de abordar os temas mais recentes em dermatoscopia. Serão 8 posts no blog, divididos por temas. Este é o sexto post da série, escrito pela Dra. Vanessa Gurgel. Faça uma boa leitura e tome nota.

Psoríase  

A psoríase é uma doença da pele relativamente comum, crônica e não contagiosa. É cíclica, ou seja, apresenta sintomas que desaparecem e reaparecem periodicamente. Sua causa é desconhecida, mas se sabe que pode estar relacionada ao sistema imunológico, às interações com o meio ambiente e à suscetibilidade genética.

Acredita-se que ela se desenvolve quando os linfócitos T (células responsáveis pela defesa do organismo) liberam substâncias inflamatórias e formadoras de vasos. Iniciam-se, então, respostas imunológicas que incluem dilatação dos vasos sanguíneos da pele e infiltração da pele com células de defesa chamadas neutrófilos, como as células da pele estão sendo atacadas. Sua produção também aumenta, levando a uma rapidez do seu ciclo evolutivo, com consequente grande produção de escamas devido à imaturidade das células. Esse ciclo faz com que as células mortas não consigam ser eliminadas eficientemente, formando manchas espessas e escamosas na pele. Normalmente, essa cadeia só é quebrada com o tratamento.

É importante ressaltar: a doença não é contagiosa e o contato com pacientes não precisa ser evitado. É frequente a associação de psoríase e artrite psoriática, doenças cardiometabólicas, doenças gastrointestinais, diversos tipos de cânceres e distúrbios do humor. A patogênese das comorbidades em pacientes com psoríase permanece desconhecida. Entretanto, há hipóteses de que vias inflamatórias comuns, mediadores celulares e susceptibilidade genética estão implicados.

Psoríase

Sintomas

Os sintomas variam de acordo com o paciente, conforme o tipo da doença, mas podem incluir:

  • Manchas vermelhas com escamas secas esbranquiçadas ou prateadas;
  • Pequenas manchas brancas ou escuras residuais após lesões;
  • Pele ressecada e rachada; às vezes, com sangramento;
  • Coceira, queimação e dor;
  • Unhas grossas, sulcadas, descoladas e com depressões puntiformes;
  • Inchaço e rigidez nas articulações.

Alguns fatores podem aumentar as chances de uma pessoa adquirir a doença ou piorar o quadro clínico já existente, dentre eles:

  • Histórico familiar
  • Estresse
  • Obesidade
  • Tempo frio
  • Consumo de bebidas alcoólicas.
  • Tabagismo

Há vários tipos de psoríase. O dermatologista deve identificar a doença, classificá-la e indicar a melhor opção terapêutica.  Dependendo do tipo de psoríase e do estado do paciente, os ciclos de psoríase duram de algumas semanas a meses.

Tipos de psoríase

  • Psoríase em placas ou vulgar: manifestação mais comum da doença. Forma placas secas, avermelhadas, com escamas prateadas ou esbranquiçadas. Essas placas coçam e, algumas vezes, doem, podendo atingir todas as partes do corpo, inclusive genitais. Em casos graves, a pele em torno das articulações pode rachar e sangrar.
  • Psoríase ungueal: afeta as unhas das mãos e dos pés. Faz a unha crescer de forma anormal, grossa, escamada, mude de cor e até se deforme. Em alguns casos, a unha chega a descolar do leito ungueal.
  • Psoríase do couro cabeludo: surgem áreas avermelhadas com escamas espessas branco-prateadas, principalmente após coçar. O paciente pode perceber os flocos de pele morta em seus cabelos ou em seus ombros, especialmente depois de coçar o couro cabeludo. Assemelha-se à caspa.
  • Psoríase gutata: geralmente, é desencadeada por infecções bacterianas, como as de garganta. É caracterizada por pequenas feridas, em forma de gota no tronco, nos braços, nas pernas e no couro cabeludo. As feridas são cobertas por uma fina escama, diferentemente das placas típicas da psoríase que são grossas. Este tipo acomete mais crianças e jovens antes dos 30 anos.
  • Psoríase invertida: atinge, principalmente, áreas úmidas como axilas, virilhas, embaixo dos seios e ao redor dos genitais. São manchas inflamadas e vermelhas. O quadro pode agravar em pessoas obesas ou quando há sudorese excessiva e atrito na região.
  • Psoríase pustulosa: nesta forma de psoríase, podem ocorrer manchas, bolhas ou pústulas (pequena bolha que parece conter pus) em todas as partes do corpo ou em áreas menores, como mãos, pés ou dedos (chamada de psoríase palmoplantar). Geralmente, desenvolve-se rápido, com bolhas de pus que aparecem poucas horas depois de a pele tornar-se vermelha. As bolhas secam dentro de um dia ou dois, mas podem reaparecer durante dias ou semanas. A psoríase pustulosa generalizada pode causar febre, calafrios, coceira intensa e fadiga.
  • Psoríase eritrodérmica: é o tipo menos comum. Acomete todo o corpo com manchas vermelhas, que podem coçar ou arder intensamente, levando a manifestações sistêmicas. Ela pode ser desencadeada por queimaduras graves, tratamentos intempestivos (como uso ou retirada abrupta de corticosteróides), infecções ou por outro tipo de psoríase mal-controlada.
  • Psoríase artropática: além da inflamação na pele e da descamação, a artrite psoriática, como também é conhecida, causa fortes dores nas articulações. Afeta mais comumente as articulações dos dedos dos pés e mãos, coluna e juntas dos quadris e pode causar rigidez progressiva e até deformidades permanentes. Também pode estar associada a qualquer forma clínica da psoríase.

Dermatoscopia ungueal

Os achados dermatoscópicos da psoríase ungueal dependem de qual parte do aparelho ungueal é afetada pela doença.  Na matriz ungueal a psoríase produz anormalidades na superfície da lâmina ungueal, como o pitting. Quando acomete o leito ungueal, pode produzir onicólise, manchas salmão, hemorragias e hiperqueratose subungueal.

Líquen Plano

Líquen plano é uma doença inflamatória que pode afetar a pele, unhas, couro cabeludo e até as mucosas da boca e da região genital. Esta doença é caracterizada por lesões avermelhadas, que podem ter pequenas listras brancas, com o aspecto enrugado, têm um brilho característico e são acompanhadas de intenso prurido. As lesões do líquen plano podem se desenvolver lentamente ou aparecer de repente, podendo afetar homens e mulheres de qualquer idade e a causa não é bem definida, porém o aparecimento destas lesões está relacionado a reação do sistema imunológico e, por isso, não é contagiosa.

Sintomas


Os sintomas do líquen plano podem variar de uma pessoa para outra, no entanto, são comuns lesões na boca, tórax, braços, pernas ou região genital com as seguintes características:

  • Dor;
  • Coloração avermelhada ou arroxeada;
  • Manchas esbranquiçadas;
  • Prurido;
  • Ardência.

Esta doença também pode provocar o aparecimento de feridas e bolhas na boca ou região genital, queda de cabelo, diminuição da espessura das unhas e pode gerar sintomas muitos parecidos à de outras alterações de pele.

Líquen plano em estágio avançado na unha do dedo da mão, com formação de uma faixa de cicatriz de formato triangular (pterígio) estendendo-se distalmente a partir da prega e da matriz da unha, até envolver o leito ungueal, com perda de formação de placa ungueal normal. Fonte : medicina.net

Líquen Plano Ungueal (LPU)

O líquen plano ungueal (LPU) é uma doença inflamatória capaz de provocar alterações na matriz (raiz da unha), no leito ungueal (região abaixo da unha) e na região periungueal (ao redor da unha). Essas modificações podem levar a danos irreversíveis da unidade ungueal se não forem tratadas a tempo. Evidências sugerem que a doença seja autoimune.

Sintomas

O envolvimento da matriz ungueal é evidenciado pela diminuição da espessura da placa ungueal, estrias na superfície da unha e fenda distal. Esse problema evolui para a fragmentação da placa ungueal e fenda longitudinal. Outros sinais: lúnula (parte da unha que se localiza na base desse anexo cutâneo) avermelhada; manchas brancas; pontos na unha semelhante ao "dedal", chamados pittings; unha rugosa e descolamento da unha na região próxima e abaixo da cutícula.

O acometimento do leito ungueal pode ser visto como descolamento, pontos hemorrágicos e alteração da cor: marrom (melanoníquia), vermelho (eritroniquia) e ceratose subungueal. Mudanças associadas ao acometimento simultâneo da matriz e leito ungueais incluem: cicatrizes ungueais, atrofia da unidade ungueal (não há mais formação da unha), estrias na superfície da unha convergindo ao centro da unidade ungueal. Além dessas mudanças típicas pode ocorrer inflamação ao redor da unha.

Dermatoscopia do Líquen Plano

A dermatoscopia evidencia as estrias de Wickham. Seu formato pode ser arredondado, linear, arboriforme, reticular ou anular. Seu tamanho é muito variável. Vasos capilares proeminentes podem ser observados nas bordas das estrias.

Hallazgos dermatoscópicos no líquen plano

Texto Elaborado pela Dra. Vanessa Gurgel

Formada em Medicina pela Universidade de Marília (UNIMAR/SP). É membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).

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