Depressão: como a quantidade de exercício físico associa-se à incidência?

Uma revisão teve o objetivo de estabelecer associação entre exercício físico e depressão com investigação aprofundada do padrão dose-resposta.

As recomendações atuais da quantidade mínima de exercício físico adequada para manutenção da saúde é de 150 minutos semanais com moderada intensidade ou 75 minutos semanais de exercício de alta intensidade. No contexto da saúde mental, e mais especificamente da depressão, faz-se necessário compreender mais amplamente se quantidades menores também tem efeito positivo e como o risco é alterado de acordo com o aumento gradual do volume de exercício.

Tais características são de particular importância para a adequada orientação de pacientes na prática clínica, especialmente considerando a alta prevalência de sintomas depressivos observados na população. Em revisão sistemática e meta-análise recentemente publicada no Jama Psychiatry, os autores objetivam estabelecer a associação entre exercício físico e depressão com investigação aprofundada do padrão dose-resposta.

Metodologia

A revisão da literatura foi realizada sem restrição de idiomas, incluindo artigos publicados até novembro de 2020 e indexados nas seguintes bases de dados: PubMed, SCOPUS, Web of Science e PsycINFO. A busca e coleta dos dados foi realizada por dois autores diferentes com as divergências resolvidas por um terceiro autor.

No que se refere ao relato, o estudo se adequou ao guideline Meta-analysis of Observational Studies in Epidemiology (MOOSE).    

Foram dois os desfechos considerados: transtorno depressivo maior (relatado pelo médico ou diagnosticado por entrevistas estruturadas do DSM ou CID-10) e sintomas depressivos importantes (definidos através de escalas de screening). Foram incluídas apenas coortes prospectivas, de pacientes adultos, com número mínimo de 3000 pacientes e período de acompanhamento de pelo menos três anos.

Tais critérios são especialmente importantes na tentativa diminuir a possibilidade de causalidade reversa e efeito dos estudos pequenos no resultado da meta-análise. Outro ponto positivo é a utilização de inúmeras técnicas de harmonização da exposição na tentativa de definir adequadamente a frequência, intensidade e duração do exercício.

Para avaliação da heterogeneidade estatística, além da utilização do I2 foram utilizadas técnicas de meta-regressão.

Resultados e limitações

Após o processo de seleção, 15 estudos foram incluídos totalizando 191.130 pacientes acompanhados e mais de 25 mil desfechos. Dentre os resultados mais importantes destacam-se:    

Curva de dose resposta demonstrou maior benefício de aumento de atividade física na redução da incidência de depressão em volumes abaixo do recomendado atualmente.

Em outras palavras, pacientes inativos ou com volume pequeno de atividade física possuem ganhos maiores na redução do risco de depressão ao aumentar a atividade física do que aqueles que atingem um volume de atividade física recomendado.  

Em comparação aos pacientes inativos, aqueles que atingiram a metade do volume de atividade física mínima recomendada (4.4 mMET-h/wk) apresentaram diminuição relativa de 18% (IC 95%= 13 a 23%) no risco de depressão e aqueles acumulando o mínimo recomendado apresentaram uma redução de 25% (IC 95%=18% a 32%)  

Acima do volume recomendado de atividade física os ganhos relativos são menores e apresentam maior grau de incerteza

Em termos absolutos um em cada nove casos de depressão podem ser prevenidos naqueles que atingirem o volume de exercício recomendado  

Dentre as limitações do estudo destacam-se: alta heterogeneidade estatística, uso de medidas de exercício informadas pelos próprios pacientes, possibilidade de relação de causalidade reversa, risco de superestimação do tamanho de efeito e pequeno número de estudos em países de baixa e média renda.

Mensagem prática

O exercício físico, mesmo em quantidades abaixo das recomendadas atualmente, pode ter impacto importante na saúde mental. A comunicação adequada ao paciente desse tipo de achado tem potencial de melhora da adesão ao exercício e dos desfechos em saúde mental.  

O estudo demonstrou que o equivalente a 75 minutos por semana de exercício moderado (metade do recomendado) pode ter um impacto de 18% na redução relativa do risco de depressão, assumindo uma relação de causalidade.  

AUTOR

Victor Grandi Bianco

Graduação em medicina pela UFRJ ⦁ Residência médica em psiquiatria pelo IPUB/UFRJ ⦁ Mestrando em Saúde Pública pelo Imperial College London.

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