Identifique os sintomas, critérios, diagnósticos e mais para síndrome do intestino irritável, doença de Crohn, retocolite ulcerativa e doença celíaca.
Gastroenterologia é a especialidade médica dedicada ao estudo, diagnóstico e tratamento das doenças do trato gastrointestinal, incluindo intestino, estômago, fígado, pâncreas, vesícula e vias biliares.
Neste artigo, você vai conhecer as principais patologias intestinais, seus diagnósticos diferenciais e os tratamentos mais atuais para a prática clínica.
Quais são as principais doenças do intestino?
Os principais motivos de consulta médica no gastroenterologista são cólicas, distensão, obstrução, dificuldade de evacuar e diarreia.
Esses sintomas são comuns a muitas doenças intestinais e saber diferenciá-las e tratar corretamente de acordo com as recomendações e estudos atuais é fundamental ao gastroenterologista.
Vamos falar melhor sobre cada uma delas, tendo uma visão crítica do diagnóstico diferencial e tratamentos atualmente prescritos. Acompanhe a seguir!
1. Doença de Crohn
Trata-se de uma doença inflamatória que se manifesta ao longo de todo o trato gastrintestinal, sendo mais comum na porção distal do intestino delgado e do intestino grosso. Acomete desde a mucosa até as camadas musculares das alças.
Etiologia:
É uma doença idiopática, ou seja, sua causa ainda não está bem estabelecida, mesmo nos estudos mais recentes. Pode se manifestar com surtos agudos recorrentes intercalados com períodos longos de remissão.
Quadro clínico
- Estomatite;
- Diarreia frequente (com ou sem muco nas fezes);
- Dor abdominal do tipo cólica;
- Emagrecimento;
- Febre.
É possível também a ocorrência de fístulas. Até 30% dos doentes com Crohn tem manifestações no ânus e região perianal. Outras manifestações extraintestinais podem surgir na pele, articulações, olhos e fígado.
Diagnóstico:
A colonoscopia com biópsia e avaliação do íleo terminal é o melhor recurso para o diagnóstico da doença, o exame histopatológico do tecido biopsiado pode confirmar. A tomografia de abdome pode ser utilizada na avaliação das fístulas entre alças intestinais.
Tratamentos
O tratamento depende da forma de apresentação da doença e da gravidade. Ele é iniciado, em um primeiro momento, sempre com medicamentos e os corticosteroides são as medicações mais utilizadas atualmente.
Várias outras drogas podem ser associadas com o objetivo de fazer regredir a inflamação dos tecidos, como os aminossalicilatos, os fistulectomia, imunossupressores e a terapia biológica (anticorpos monoclonais).
No entanto, alguns casos necessitam de intervenção cirúrgica para tratamento de complicações.
2. Síndrome do intestino irritável (SII)
Pela própria definição de síndrome, podemos afirmar que a síndrome do intestino irritável pode contemplar um conjunto de sintomas, sem que haja qualquer evidência de lesões subjacentes no intestino grosso ou delgado. Ou seja, não há lesão orgânica decorrente da SII.
Etiologia
Assim como na Doença de Crohn, a causa precisa da SII não é conhecida. Fatores que parecem desempenhar um papel relevante incluem:
- Contrações musculares de força anormal no intestino,
- Alterações no sistema nervoso intestinal (plexo mioentérico);
- Doenças inflamatórias intestinais;
- Infecção subjacente;
- Alterações na microflora intestinal.
Os fatores desencadeantes demonstrados após anos de estudos foram o estresse emocional, alimentação industrializada, especialmente o uso de conservantes e corantes artificiais.
Quadro clínico
- Dor abdominal do tipo cólica;
- Distensão abdominal;
- Aumento na frequência de evacuações,
- Constipação, intercalando com períodos de diarreia.
Apenas um pequeno número de pessoas com SII tem sinais e sintomas graves. Vale ressaltar que a síndrome não causa alterações no tecido intestinal nem aumenta o risco de câncer colorretal.
Diagnóstico
Novos critérios para o diagnóstico da SII foram divulgados em junho de 2016. Os critérios chamados de Roma IV refletem avanços em pesquisas científicas básicas e ensaios clínicos, já que os critérios de Roma III foram publicados 10 anos atrás.
Essa edição levou 6 anos para ser desenvolvida e envolveu contribuições de 117 especialistas, representando 23 países. Roma IV tem várias mudanças importantes em como os distúrbios intestinais funcionais são descritos e diagnosticados, como dor abdominal recorrente, em média, pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses, associada a dois ou mais dos seguintes critérios:
- Alteração na frequência das fezes;
- Mudança na forma ou aparência das fezes;
- Apresentar sintomas nos últimos 3 meses com início dos sintomas pelo menos 6 meses antes do diagnóstico.
Tratamentos
O tratamento concentra-se no alívio dos sintomas para que o paciente tenha qualidade de vida. Sinais e sintomas leves podem ser tratados pelo controle do estresse e por mudanças na dieta e no estilo de vida.
Evitar alimentos que desencadeiam os sintomas, aumentar a ingestão de fibras e água são medidas fundamentais que os pacientes devem ser orientados e estimulados a fazer.
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3. Retocolite ulcerativa
Trata-se de uma doença inflamatória idiopática que acomete cólon e reto. Caracteriza-se pela inflamação da camada superficial, restrita à mucosa, sem acometer a musculatura das alças.
Etiologia
A etiologia da retocolite ulcerativa permanece desconhecida. Até alguns anos atrás, a dieta e o estresse foram suspeitados, mas, atualmente, sabe-se que esses fatores podem piorar, mas não causar retocolite ulcerativa.
Uma causa possível é a desordem do sistema imunológico. Quando algum vírus ou bactéria invasora estimula uma resposta imune anormal, o sistema imunológico pode, por meio de reação cruzada, atacar também células da mucosa do trato digestivo.
Quadro clínico
Os pacientes apresentam diarreia crônica com sangue, sendo comum a anemia, mas frequentemente sem febre. A retocolite ulcerativa também apresenta manifestações extraintestinais, como:
- Xeroftalmia;
- Artralgia;
- Doenças reumatológicas (espondilite anquilosante);
- Eritema ou rash cutâneo.
Diagnóstico
O diagnóstico se confirma por exclusão de doenças com causas tratáveis. Uma retossigmoidoscopia com biópsia é sempre obrigatória e ajuda a visualizar as lesões na mucosa dos segmentos mais distais do cólon e reto que são acometidos.
Tratamentos
O tratamento a princípio é clínico. Drogas específicas para controlar a inflamação intestinal, como sulfassalazina e imunossupressores também são recomendados.
Se, ainda assim, a doença continua sintomática, o próximo passo é a introdução de medicamentos biológicos, tendo como o primeiro da lista o infliximabe. Nos casos em que não se consegue bom controle da doença, mesmo com o tratamento clínico, a cirurgia deve ser considerada, além de solicitar a avaliação da coloproctologia.
4. Obstipação
É definida pela dificuldade em evacuar, causando desconforto, dor abdominal e distensão no paciente. Trata-se de um conjunto de sintomas e não de uma doença. Pode, entretanto, ser o sinal inicial de uma doença que precise de investigação do gastroenterologista para um diagnóstico específico.
Etiologia
Na maioria dos casos a obstipação intestinal não é provocada por um distúrbio de ordem física ou anatômica do trato intestinal. A causa mais comum é a propulsão difícil do bolo fecal em seu trajeto em direção ao reto e canal anal, especialmente pelo sedentarismo, alimentação pobre em fibras e pouca ingestão de água.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico da constipação é essencialmente clínico, não necessitando de investigação complementar específica, podendo ser iniciado o tratamento clínico empírico com o aumento da ingestão oral de fibra vegetal e de água (pelo menos 2 litros ao dia).
A melhora do quadro clínico com essas medidas e na ausência de outras alterações confirma o diagnóstico. O paciente deve ainda ser estimulado a praticar atividade física e, em alguns casos selecionados, ter uma abordagem psicoterápica para complementar o tratamento clínico.
Como você pode perceber, é essencial que todo médico conheça e saiba tratar as doenças do intestino, sendo essas queixas frequentes em consultórios e pronto atendimentos.
Se manter sempre atualizado é fundamental, sendo a pós-graduação em gastroenterologia uma excelente opção para adquirir conhecimentos na área e estar apto a diagnosticar e tratar os pacientes.
FAQ
Qual é a diferença entre a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa?
A principal diferença está na extensão e na profundidade da inflamação. A doença de Crohn pode acometer qualquer segmento do tubo digestivo e costuma atingir todas as camadas da parede intestinal, enquanto a retocolite ulcerativa compromete apenas o cólon e o reto, de forma contínua, envolvendo principalmente a mucosa. Isso ajuda a explicar por que as manifestações clínicas e as complicações também podem ser diferentes.
Quais são os sintomas cardinais da síndrome do intestino irritável?
Os sintomas mais característicos são dor abdominal recorrente associada à alteração do hábito intestinal, como diarreia, constipação ou alternância entre os dois. Distensão abdominal, sensação de evacuação incompleta e alívio da dor após evacuar também são comuns. O diagnóstico é clínico e deve ser feito com atenção aos sinais de alarme que sugerem outras doenças intestinais.
Como é feito o diagnóstico definitivo da doença celíaca?
O diagnóstico é suspeitado por sorologia positiva, especialmente anti-transglutaminase tecidual IgA, e confirmado por biópsia do intestino delgado, geralmente obtida por endoscopia digestiva alta. A lesão típica é a atrofia vilositária, que indica dano à mucosa intestinal. É importante que o paciente ainda esteja consumindo glúten no momento da investigação, para evitar falso-negativos.
Quais alimentos devem ser totalmente evitados por quem tem sensibilidade ao glúten?
Devem ser evitados alimentos que contenham trigo, cevada e centeio, além de seus derivados. Isso inclui pão, macarrão, bolos, cerveja e diversos produtos industrializados que usam farinha ou malte na composição. Em muitos casos, a orientação nutricional é essencial para identificar fontes ocultas de glúten e garantir uma dieta realmente segura.
Quais são as principais causas para o desenvolvimento de doenças inflamatórias intestinais?
As doenças inflamatórias intestinais têm origem multifatorial. Envolvem predisposição genética, resposta imune desregulada, alterações da microbiota intestinal e fatores ambientais, como tabagismo e algumas exposições infecciosas. Não existe uma causa única, mas sim a interação desses elementos, o que explica a natureza crônica e recidivante dessas doenças.
O que caracteriza uma crise aguda de retocolite ulcerativa e quando ir ao hospital?
A crise aguda costuma se manifestar com aumento da frequência evacuatória, presença de sangue nas fezes, urgência para evacuar, dor abdominal, febre e, em quadros mais intensos, sinais de desidratação e piora do estado geral. O paciente deve procurar atendimento hospitalar quando houver sangramento importante, febre alta, taquicardia, dor intensa, prostração ou incapacidade de hidratação adequada.
A síndrome do intestino irritável pode evoluir para uma doença mais grave ou câncer?
Não. A síndrome do intestino irritável é um distúrbio funcional e não evolui para câncer nem para uma doença inflamatória intestinal. Apesar disso, os sintomas podem ser persistentes e impactar bastante a qualidade de vida. Por isso, é importante diferenciar esse quadro de condições orgânicas que exigem investigação específica.
Quais exames de imagem e laboratoriais diagnosticam a doença de Crohn?
O diagnóstico combina avaliação clínica, exames laboratoriais e métodos de imagem. Entre os principais, estão hemograma, PCR, calprotectina fecal, colonoscopia com biópsia e exames de imagem como enterotomografia, enterorressonância e ultrassonografia intestinal. Esses exames ajudam a identificar extensão da doença, atividade inflamatória e possíveis complicações, como estenoses e fístulas.
Como o estresse emocional influencia as crises de dor e diarreia nas patologias intestinais?
O estresse emocional pode piorar sintomas intestinais por meio do eixo intestino-cérebro, que interfere na motilidade, na sensibilidade visceral e na resposta inflamatória. Em doenças como a síndrome do intestino irritável, isso é ainda mais evidente. Embora o estresse não seja a causa única do problema, ele pode funcionar como gatilho ou fator de manutenção das crises.
Qual é o papel da microbiota intestinal no controle dessas inflamações crônicas?
A microbiota intestinal participa da regulação da imunidade, da integridade da barreira intestinal e do equilíbrio inflamatório. Quando há desequilíbrio dessa microbiota, chamado disbiose, pode ocorrer piora da resposta inflamatória e maior permeabilidade intestinal. Por isso, esse componente tem sido cada vez mais estudado como parte da fisiopatologia e do manejo das doenças intestinais crônicas.
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