Como a dermatoscopia auxilia no diagnóstico de doenças da unha?

Para falar sobre as primeiras elementares e dermatoses mais frequentes da pele, do cabelo e da unha, a equipe AFYA preparou uma série de artigos que incluem algumas das dermatoses e tumores comuns na prática dermatológica, além de abordar os temas mais recentes em dermatoscopia. Serão 8 posts no blog, divididos por temas. Este é o oitavo e último post da série, escrito pela Dra. Maria de Fátima Maklouf Amorim. Leia já!

O dermatoscópio é um aparelho de ampliação não invasivo, prático, que permite a avaliação de características específicas das unhas. O exame pode ser realizado com dermatoscópio manual, com aumento de 10x, ou com videodermatoscópio, que permite ampliações de até 200x. Um dermatoscópio portátil é, em geral, suficiente para ver sinais de diferentes doenças ungueais. O conhecimento da anatomia da unha e das estruturas relacionadas (ligamento e tendão, falange dos ossos, vasos e pele) são importantes para a suspeita diagnóstica e procedimentos diagnósticos (Figura 1).

A dermatoscopia ungueal (onicoscopia) permite a avaliação mais detalhada das estruturas das bordas e da lâmina ungueal (Figuras 2 e 3). Avaliando a borda proximal, é possível observar alterações dos capilares em doenças do colágeno, como a esclerodermia (Figura 4) e alterações inflamatórias, como a paroníquia, comum em pessoas que trabalham muito com água (Figura 5).Na avaliação dos sinais de alteração no leito e matriz ungueal, a dermatoscopia é fundamental para o diagnóstico de psoríase.

Os sinais de comprometimento da matriz ungueal são:

  • Leuconíquia, pontos brancos na lâmina ungueal, que corresponde à hiperceratose da matriz ungueal proximal;
  • Pitz ungueais, corresponde a depressões cupuliformes na unha, que corresponde à hiperceratose da matriz ungueal distal;
  • Mancha vermelha na lúnula, que corresponde ao sinal de inflamação (Figuras 6, 7, 8, 9 e 10).

Os sinais de comprometimento do leito ungueal são:

  • Estrias hemorrágicas - ruptura vascular;
  • Manchas de óleo, que corresponde a paraceratose;
  • Onicólise - que corresponde ao deslocamento da lâmina ungueal na borda distal da unha, devido ao processo inflamatório, às vezes acompanhando a  hiperceratose subungueal. (Figuras 11, 12, 13 e 14)

Melanoníquia

Um dos mais importantes sinais clínicos e dermatoscópicos na unha é a melanoníquia, faixa longitudinal pigmentar (castanha ou preta) dentro da lâmina ungueal, que se estende da prega ungueal proximal à parte distal e da lâmina ungueal, por causa da deposição de melanina na lâmina ungueal. A incidência é maior em pessoas de fototipo + IV, V e VI de Fitzpatrick, acima de 45 anos. Em crianças, 47,5% dos casos de melanoníquia são devidos a nevo melanocítico. A ativação melanocítica, lentigo, nevos e melanoma in situ ou invasivo representam as principais causas de melanoníquia.

Aproximadamente 67% dos melanomas da unha iniciam com melanoníquia. Alguns sinais clínicos determinam a suspeita de melanoma, entre eles, o “sinal de Hutchinson, definido como disseminação periungueal de melanina nas dobras ungueais, sinal presuntivo de melanoma, a regra do ABCDEF, entre outros, com limitações para distinguir lesão benigna ou maligna. A dermatoscopia é uma importante ferramenta para o diagnóstico das melanoníquias, mas a biópsia é obrigatória em casos suspeitos e a histopatologia ainda é o padrão ouro para o diagnóstico. Na dermatoscopia, 2 etapas são seguidas: observar a cor na unha, seguido do algoritmo para diferenciar lesão benigna ou maligna. (Figura 14)

Quais as causas  da melanoníquia?

  • Ativação melanocítica da matriz da unha
  • Aumento na atividade dos melanócitos com o subsequente aumento da síntese de melanina na matriz e subsequente deposição de melanina na lâmina ungueal sem um aumento concomitante no número de melanócitos. (Figura 15)
  • Fototipo de pele; gravidez; trauma local crônico; infecção (pseudomonas); medicamentos, fototerapia, desordens inflamatórias (lúpus); onicomicose (fungo produz a melanina).
  • Hiperplasia melanocítica
  • Aumento do número de melanócitos com aumento síntese de melanina na matriz ungueal ou leito ungueal e posteriormente deposição de melanina na lâmina ungueal.
  • Lentigo; nevos; Melanoma; carcinoma basocelular pigmentado; carcinoma espinocelular pigmentado; ceratose seborreica pigmentada. (Figura 16)

Hirata et al. descreveram padrões na dermatoscopia intraoperatória, com alta sensibilidade e especificidade (Figura 15 e 16).

Anatomia da unha

Figura 2

Figura 3
Figura 4 – Esclerodermia e alteração da microcirculação (vasos dilatados e áreas avasculares)
Figura 5 - Paroníquia

Figura 6 - Psoríase ungueal.
Leuconíquia (pontos brancos) consequente a falha na formação da unha.1
Estrias hemorrágicas (trauma capilar) 3
Pitz ungueais (depressões cupuliformes na unha) 4.

Figura 7 - Pitz ungueais
Figura 8 - Dermatoscopia da peça de biópsia da matriz e leito ungueal
Figura 9 - Mancha vermelha na lúnula
Figura 10 - Manchas de óleo
Figura 11 - Onicólise
Figura 12 - Onicólise

Figura 13 - Hiperceratose subungueal
Figura 15 - Dermatoscopia: ativação melanocítica-traumático

Figura 16 - Dermatoscopia (A) e dermatoscopia intraoperatória (B)
Ativação melanocítica - padrão de linhas castanhas regulares - Lentigo

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REFERÊNCIAS
  1. ../../Downloads/v88-Consenso-sobre-dermatoscopia-da-placa-ungueal-em-melanoniquias.pdf
  2. J Am Acad Dermatol. 2020 Jan;82(1):260. doi: 10.1016/j.jaad.2019.09.043. Epub 2019 Sep 26.PMID: 31699502
  3. https://doi.org/10.1007/978-3-319-65649-6_31
  4. DOI: 10.1159/000458728
  5. DOI: 10.1007/978-3-319-44993-7

Texto Elaborado por: Dra. Maria de Fátima Maklouf Amorim
Médica dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia em parceria com a Associação Médica Brasileira. Mestre em Dermatologia pela Universidade Federal de São Paulo. Coordenadora da pós-graduação de Dermatologia, tricologia e dermatologia estética da Faculdade IPEMED. Dermatologista com aprimoramento na área de tricologia.

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